Borboletas Negras

       Nada é mais digno para contar a vida de uma poeta importante do que uma poesia. É isso que o filme holandês “Borboletas Negras” (”Black Butterflies”) tenta ser e consegue. Faz isso por meio de uma direção de arte impecável, que opõe as mais belas paisagens da África do Sul, mais precisamente as praias da Cidade do Cabo, à conturbada vida da mais importante poeta sul-africana, Ingrid Jonker (Carice van Houten, vencedora do prêmio de melhor atriz no Festival de Tribeca, pelo papel).
        A projeção começa com um flashback da infância de Ingrid, quando ela e sua irmã Anna (Candice D’Arcy) perdem a avó que tomava conta delas e conhecem o seu pai, o racista e conservador Abraham Jonker (Ritger Hauer, visto recentemente em ‘O Ritual’). Conhecemos então a personagem já adulta, quase se afogando numa praia, quando é resgatada por Jack Cope (Liam Cunnignham), com quem logo começa um intenso relacionamento amoroso. Agora, Ingrid já é divorciada, tem uma filha bebê, um ex-marido doido para recuperá-la e um ódio por seu pai, que faz questão de menosprezá-la.
       Esse é o ponto de partida que a biográfica obra propõe para contar a história, não só da poeta, mas do país em que ela nasceu. Ingrid testemunhou o Apartheid de perto, tendo um grande defensor do regime em sua família: seu próprio pai, presidente do comitê responsável pela censura de todo entretenimento, inclusive a literatura. A influência negativa de seu pai não impediu a moça de se tornar uma das grandes defensoras pela liberdade e igualdade dos negros. Tal envolvimento a tornou um marco e ela teve seu poema “The dead child of Nyanga” (‘A criança morta de Nyanga’) lido por Nelson Mandela no discurso de inauguração do primeiro parlamento democrata em 1994, cujas falas tiveram partes incluídas perfeitamente no filme. A história desse poema especificamente, mas também de tantos outros de maneira mais geral, é retratada com firmeza pela diretora Paula van der Oest, que intercala poesias da obra da sul africana com o decorrer de sua vida adulta.
       Não há muito o que criticar em “Borboletas Negras”. As alegrias, os medos e as tristezas de Jocker estão lá e envolvem o público como um bom drama deve envolver. É uma obra que prende a atenção mesmo nos momentos mais parados e transforma até as negativas passagens da vida de Ingrid em momentos poéticos e de certos pontos até positivos. Ingrid Jocker deixou um legado na cultura sul africana que nunca será esquecido e o filme faz juz a ele.

Abaixo o poema mais importante da carreira da poeta, “The dead Child of Nyanga”. Confira:

The child is not dead
The child lifts his fists against his mother
Who shouts Afrika ! shouts the breath
Of freedom and the veld
In the locations of the cordoned heart

The child lifts his fists against his father
in the march of the generations
who shouts Afrika ! shout the breath
of righteousness and blood
in the streets of his embattled pride

The child is not dead not at Langa nor at Nyanga
not at Orlando nor at Sharpeville
nor at the police station at Philippi
where he lies with a bullet through his brain

The child is the dark shadow of the soldiers
on guard with rifles Saracens and batons
the child is present at all assemblies and law-givings
the child peers through the windows of houses and into the hearts of mothers
this child who just wanted to play in the sun at Nyanga is everywhere
the child grown to a man treks through all Africa

the child grown into a giant journeys through the whole world
Without a pass

fonte: allpoetry.com

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