A Dama de Ferro

   
        Meryl Streep, uma das melhores atrizes (senão A melhor) da atualidade, duas vezes vencedora do Oscar, dezessete vezes indicada, desponta em A Dama de Ferro (The Iron Lady) como a favorita para ganhar o prêmio de Melhor Atriz no Oscar 2012. De baixo de muita maquiagem, Meryl é Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica e uma das personalidades mais odiadas do mundo. O contraste entre atriz e personagem só consegue ficar maior quando consideramos que Streep é esquerdista e Thatcher representa todo conservadorismo do mundo político atual. Entretanto, com uma atriz brilhante como Streep e uma personalidade tão controversa como a política, o filme fica aquém do esperado.
        Nessa tentativa de se fazer uma biografia, exaltando as qualidades de Thatcher, acompanhamos a “dama de ferro” já muito velha e debilitada alucinar com seu marido já falecido e relembrar cenas de seu passado, em épocas em que tinha forças para fazer a diferença e mudar o mundo. O presente é intercalado com flashbacks que passam brevemente pela sua infância e sua ascenção política, até a sua administração no comando da Grã-Bretanha.
        Meryl mostra que, ao contrário de Thatcher, ainda está em boa forma, fazendo um trabalho brilhante. Toda a força que Margaret teve para se tornar a primeira mulher a ocupar o cargo de primeira-ministra em todo o Ocidente, para aplicar medidas frias e impopulares, ignorando até mesmo seus conselheiros próximos, toda a sua determinação para conseguir o que queria, é mostrada nas telas de maneira indiscutivelmente perfeita. A diretora Phyllida Lloyd (Mamma Mia!) conseguiu arrancar de Streep a Margaret Thatcher perfeita, a corajosa, a feminista, a idealista. Compare um discurso da verdadeira com a de Meryl: a semelhança entre as duas passa a ser gritante.
        Entretanto, essa figura exaltada de Thatcher é mais que incongruente com a realidade do mundo atual, em que as consequências das medidas que ela tomou na sua gestão são sentidas nos países que adotaram o neoliberalismo. Tais consequências já foram sentidas, claro que não com tanta intencidade, na sua administração e o ódio por Thatcher é mostrado sim, mas usado para fortalecer a imagem de Thatcher como a mulher que acha que está salvando a economia da Inglaterra e que não se importa com os “efeitos colaterais do seu remédio”. A mulher cuja bravura supera qualquer manifestação do povo que a odeia.Trabalho muito bem feito, fazer o público sentir certa admiração por ela com a situação econômica atual.
        O problema do filme não é o estrelismo ao redor de Thatcher e sim ao mostrar sua decadência. A velhice da ex-primeira ministra aparece mais do que os momentos em que ela assumiu o cargo. Uma simples cena dela atualmente no início e no final já dariam conta do recado, mas é mesmo necessário mostrar tanto essa sua nova fase? Não há valor nenhum em ficar mostrando sua velhice, não só porque nada acontece, mas também porque ela não tem condições de julgar seu passado, como mostra o filme. Muito da sua administração, ou mesmo de sua ascensão, poderia ter sido colocado em detrimento desses momentos pós fim de carreira de Margaret. Momentos que tentam mostrá-la de modo mais humano, mais frágil, ao contrário do que é visto ao longo de sua trajetória política, abalando um pouco a exaltação de Margaret ou aumentando-a ainda mais? Tal paradoxo prejudica muito o longa.
         Em conclusão, a atuação de Meryl Streep sustenta o filme até o fim e se torna o único grande atrativo da obra. Embora não possa ser classificado como ruim, ele deixa a desejar, e bons filmes não são feitos apenas de atores incríveis. Mas essa atriz, realmente, merece ser vista no que pode se tornar o papel mais memorável de sua carreira.

3 comentários em “A Dama de Ferro

  • 20 de fevereiro de 2012 a 22:13
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    Não sou cinéfilo,logo não consigo comparar a Meryl Streep como Thatcher com suas outras performaces.Entretanto,isso talves não seja necessário para afirmar o quão memorável ela foi nesse filme.Sempre que escutar algo sobre Lady Margaret Thatcher agora irei imaginar Meryl Streep no papel.

    Continue com essas críticas de rara qualidade que você irá longe

  • 22 de fevereiro de 2012 a 22:43
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    Oscar pra Meryl ou cabeças vão rolar! Haha.

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