W.E. – O Romance do Século

       
        No ganhador do Oscar O Discurso do Rei, o irmão gago do Rei Edward VIII é obrigado a aprender a falar em público para assumir a monarquia da Inglaterra, já que a majestade vive um caso de amor proibido pelas regras da realeza e deseja-se casar com a plebeia que ama. Uma das poucas histórias em que o homem é quem abre mão de tudo por uma grande paixão não poderia passar despercebida por outra rainha, sem vínculos com qualquer monarquia senão a da música, Madonna (também atriz, vencedora do Globo de Ouro por Evita), feminista determinada e uma das mulheres mais influentes do mundo, em sua primeira grande produção como diretora.
      Em W.E. – O Romance do Século (W./E.), Wally (Abbie Cornish) é uma mulher casada com um marido ausente e violento e que na história do Rei Edward (James D’Arcy) e Wallis (Andrea Riseborough) encontra certo refúgio para sua degradante rotina matrimonial: uma esperança de amor verdadeiro, que ultrapassa barreiras profissionais e sociais. De seu dia-a-dia é traçado um paralelo com o romance do rei, o tal romance do século no título brasileiro, e logo Wally encontrará um segurança russo, chamado Evgeni (Oscar Isaac), que pode ser a sua outra metade (completando o pronome “WE” (nós) com as iniciais, como Wallis e Edward).
     O filme possui grandes qualidades, principalmente na direção. Desde o início, é notável um enquadramento diferente: a câmera se aproxima muito das pessoas, das expressões faciais dos atores, às vezes até de seus pés e outros objetos. É frenética a mudança de foco, que parece tentar mostrar uma visão mais próxima, paradoxalmente um pouco menos nítida, e também mais distante das situações e emoções dos personagens. O modo como a montagem é realizada, junto com a trilha sonora perfeita, impede o espectador de se cansar com a trama, que é um pouco rasa demais, apesar da direção tentar maquiar isso. O longa começa muito bem, e a história de Wally (a moça do passado mais recente) intriga bem mais que a clássica história de amor, principalmente nas cenas mais dramáticas. A verdade é que W.E. é um filme introspectivo e Madonna tenta fazer o público refletir observando uma realidade próxima (Wally) e uma história que beira um conto de fadas (a de Wallis), mais distante, e que funciona, mesmo que de maneira por vezes superficial.
         A história ganha um tempero a mais que qualquer fã da cantora reconheceria de seu trabalho e da sua personalidade: cenas exóticas como a do homem sem cueca, ou os diálogos entre Wally e Wallis, ácidos e divertidos, em conjunto com as cenas de danças, o figurino requintado, uma visão nostálgica do tempo da realeza, a fixação por crucifixos e a exaltação da mulher. É de Madonna que estamos falando.
         E talvez por ser mesmo obra da cantora mais poderosa da história da música, que já ganhou prêmios até por ser atriz, que o filme tenha sido tão menosprezado pela imprensa? Com certeza, é difícil admitir que alguém pode ser bom em tudo o que faz, ainda mais em seu primeiro trabalho sério como diretora (vamos esquecer o tal Sujos e Sábios por ora), novo ofício que assume dizendo-se inspirada por grandes cineastas europeus. Entretanto, o filme tem seus defeitos e está longe de ser a obra-prima da canção tema, “Masterpiece” (vencedora do Globo de Ouro e incluída no novo álbum MDNA) – aliás, vale a pena ficar até o final dos créditos para ouvi-la.
         O longa peca no seguinte sentido: se a intenção era contar a história do rei que abdicou ao trono para casar com mulher que amava pelos olhos dela, isso deveria ter sido mais explorado. As cenas de época ficam numa introspecção que nada acrescenta com a descoberta do clímax do filme, que aliás, é bem menos empolgante que o início. Tal ponto de vista é deixado para o final e as cenas de época se tornam rasas, mesmo com as câmeras tentando aproximar o público da história. A história que se passa mais recentemente já é mais substanciosa e melhor explorada, mas merecia um final melhorzinho, menos previsível, e sem alguns clichêszinhos como um colar de pérolas se destruindo. Tais defeitos prejudicam a obra, obviamente, mas a direção de Madonna segura a barra de seu roteiro para que o resultado final seja positivo.
          Em suma, o filme é bom. Madonna mostra que tem potencial para diretora, e como uma amadora ela fez um trabalho estupendo. Talvez se ela deixasse o roteiro a cargo de outra pessoa, o filme pudesse ser ainda melhor. O que não pode é menosprezá-lo tendo em vista os baixos que ela teve em sua carreira como atriz ou sua inexperiência: ela é uma iniciante como outro diretor iniciante qualquer, sem formação acadêmica, só que com mais orçamento para fazer dar certo. W.E. tem seus momentos de maestria, nos faz pensar (não tanto quanto almejava, porém) e entretém. Dá pra se contentar e muito com isso.

Confira também meu texto sobre o retorno de Madonna à música no site de Cultura Geral da Cásper Líbero:  http://www.casperlibero.edu.br/noticias/index.php/,n=7380.html