Histórias que só existem quando lembradas

       
       Clarice Lispector, entre outros nomes da literatura (e também do cinema), trabalha com a questão da rotina. A mesmice do dia-a-dia de repente é quebrada por algo que na escola aprendemos como “epifania”, que acaba por gerar um sentimento confuso, desorientado, em quem sofre esse processo. Embora Lispector não seja uma das influências da diretora Julia Murat em Histórias que só existem quando lembradas, seu primeiro longa-metragem, e sim outros escritores como Juan Rulfo e Gabriel Garcia Márquez, o tema do cotidiano banal sendo interrompido (ou não) se estende nessa belíssima produção brasileira.
         Na trama, um grupo de idosos, numa cidade esquecida no meio do mato, “vive” a mesma rotina, sem qualquer alterações, todos os dias. Em uma viagem meio sem rumo para tirar fotografias, a jovem Rita (Lisa Fávero) encontra essa comunidade de velhinhos e pede moradia por alguns dias para Madalena (Sonia Guedes). Dentro desse cotidiano, observa a vida daquelas pessoas e começa a questionar sobre o passado e o presente delas.
        O filme de Murat acerta ao desenvolver bem os personagens repetindo seus rituais diários com muita calma. O dia-a-dia é sentido com a repetição, sob outros ângulos, das mesmas cenas, até que a chegada da personagem Rita altere, mesmo que minimamente, a banalidade da rotina – que nas mãos da diretora vira até motivo de piada, várias vezes (a briga de Madalena com Antonio por causa dos pães, quantas vezes se repete ao longo do enredo?). Murat fez um filme menos explicativo e mais reflexivo, e esse é o ponto mais forte do resultado final: com várias pontas soltas, muitos momentos de silêncio, e com questões no ar sobre a vida e a morte ou o novo e o velho, Histórias convida o espectador a mergulhar numa comunidade esquecida por todos e a sentir e refletir sobre várias questões existenciais. 
        Histórias possui uma bela fotografia e uma excelente atuação de Sonia Guedes, no papel principal. Lisa Fávero também está ótima como a jovem que, assim como o espectador, tenta entender a rotina da comunidade – cujos atores são, na verdade, moradores de regiões do Brasil afastadas das cidades grandes, descobertos durante a realização do documentário Dia dos Pais, também de Murat, de onde várias situações do longa, e até diálogos, foram tirados ou usados de inspiração.
        Mais que um filme sobre o cotidiano de uma comunidade isolada, Histórias que só existem quando lembradas está aberto a interpretações sobre a vida e a morte – é um longa menos para entender e mais para refletir. Quando foi a última vez que você fez algo pela primeira vez?