No [36a Mostra]

       
Uma das maiores afrontas à democracia da história latino-americana, o golpe de estado no Chile que derrubou o governo do socialista Salvador Allende até hoje se reflete em consequências políticas e sociais na sociedade chilena. Talvez por isso uma frase repetida várias vezes ao decorrer do longa, algo similar a “esse vídeo está inserido no contexto social atual. O Chile olha para o futuro”, parece uma referência ao próprio filme e ao presente em No, de Pablo Larraín, que abriu a 36ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Para legitimar sua ditadura, sob pressão internacional, o general Augusto Pinochet convocou um plebiscito que daria, ou não, continuidade ao seu governo. Mesmo com a convicção generalizada de que o plebiscito já estivesse pré-definido, alimentado pelo medo da população, o publicitário René Saavedra (Gael Garcia Bernal) resolve aceitar a difícil missão de elaborar um programa eleitoral para o “Não”, voto de oposição ao regime. Entretanto, o caminho que decide traçar não é o de expor a necessidade de combater os horrores da ditadura, e sim o de alimentar a esperança.

Baseado numa peça intitulada El Pebliscito, do escritor chileno Antonio Skármeta, o filme recebe um tom documental pela direção simples, que utilizou câmeras da época, e imagens reais do período. Engana-se quem espera uma obra sobre o governo do ditador: No se aproxima mais de um Obrigado por Fumar do que de um A História Oficial, por exemplo. O foco é a elaboração e a execução de uma campanha política, onde há uma rivalidade fortemente polarizada.

Num ano em que o ditador recebeu homenagens (que sofreram vários protestos), talvez seja muito importante mesmo mostrar que o Pinochet caiu pela vontade soberana do povo. Entretanto, não é só por isso que No é um filme interessante: as cenas das propagandas políticas para o paulistano que acaba de decidir uma eleição são bem semelhantes as que São Paulo viu em 2012. De um lado, o candidato que quer perpetuar seu poder apresenta-se como o competente, com apoio da mídia, também impondo certo medo do adversário, o “comunista”. Do outro lado, o desconhecido, que traz esperança, que vem com alegria e promete mudança. Isso mostra o quanto o filme é atual, não só por causa da memória do ditador sendo constantemente relembrada (para o bem ou para o mal), mas também por mostrar o jogo de marketing eleitoral que continua até hoje.

O uso de câmeras antigas é um ponto alto do filme, mas as semelhanças e discussões que No pode trazer já valem o ingresso. Entretanto, não traz nada muito surpreendente – o resultado do plebiscito é conhecido por todos e as estratégias de marketing também, o que não anula como a obra é um bom ponto de partida para relembrar o passado e pensar o futuro.

           

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