O Grande Gatsby

Quando saiu o trailer oficial de O Grande Gatsby (The Great Gatsby), readaptação do romance de F. Scott Fitzgerald, duas coisas chamaram muito a atenção. A primeira era o visual colorido e extravagantemente luxuoso das cenas selecionadas. A outra era a trilha sonora, pois o vídeo incluía trechos de três músicas até então inéditas de grandes cantoras da atualidade – Lana Del Rey, Beyoncé e Florence Welch (da banda inglesa Florence + The Machine). Não deu outra: sob o comando de Baz Luhrmann (Australia, Moulin Rouge), esses dois aspectos se sobressaem e dão à nova versão de Gatsby grandiloquência e personalidade.

Nick Carraway (Tobey Maguire) acaba de se mudar para um casebre no subúrbio de Nova York, ao lado de uma luxuosa mansão. Nela, vive Jay Gatsby (Leonardo DiCaprio), um misterioso homem que dá grandes festas em sua residência – o motivo, ninguém sabe, pois os frequentadores nunca são convidados e Gatsby nunca está entre eles, o que faz alguns duvidarem até de sua existência. Carraway se sente observado pelo vizinho, que não tarda a convidá-lo, exceção cuja explicação de início não é revelada.
Uma crítica recorrente ao trabalho do diretor é o seu exagero, seja no kitsch em Moulin Rouge ou na longa duração de Austrália. Em sua nova obra, a paleta de cores é extremamente colorida e os cenários e figurinos igualmente grandiloquentes. Entrar numa festa de Jay Gatsby é como embarcar no mais insano – e luxuoso, porque há todo um glamour em caracterizar a década de 20 – videoclipe pop da atualidade.
A sensação de entrar num mundo artificial e fantasioso, desde o início do filme, poderia servir para tornar o filme apenas um exemplar de entretenimento superficial, de culto ao capitalismo e à riqueza. De fato, torna desnecessária a contextualização inicial no começo do século XX, porque, por mais que os ricos tenham uma vida luxuosa, tudo o que Luhrmann – pelo menos na primeira metade do filme – nos mostra quer parecer mais um sonho do que algo possível de ser real. Mas esse clima de fantasia e o visual exagerado é o grande diferencial do filme, principalmente considerando a versão de 1974, com dois grandes astros de Hollywood, Robert Redford e Mia Farrow.
Os exageros de Luhrmann externam o estado de espírito de Gatsby. São a verdadeira caracterização do personagem (que, aliás, é muito bem interpretado por DiCaprio). Evidenciam a sua solidão, suprida – ou não – com maluquices como dar festas em que não conhece os convidados e que nem frequenta. O luxo é a máscara de Gatsby. Por trás desse disfarce do grande rico, do homem no topo do mundo, da visão de cima do pedestal, o que há? O que há por trás da utopia do capitalismo, do sonho americano? Jay-Z, produtor da excelente trilha sonora e também do longa, poderia até ter incluido American Life, de Madonna, entre as canções – “nada é o que aparece”, diz a música, à respeito do nosso estilo de vida. Cai como luva em O Grande Gatsby.
A trilha sonora é outro ponto forte. A superprodução mescla, em algumas faixas, a sonoridade de ritmos da época com os dos dias de hoje, como na ótima Bang Bang, de Will.I.Am. Young and Beautiful, de Lana Del Rey, é a mais marcante do filme (e também é a que mais se destaca), pois sintetiza em seu refrão e em sua melodia melancolica a problemática central do enredo. Na letra, a cantora questiona se o homem ainda a amará quando ela não for mais jovem e bonita. A questão da aparência, tão presente na sociedade hoje, aqui se dá por meio do luxo e da ostentação.
O novo O Grande Gatsby é muito diferente da versão de 1974 na questão da trilha sonora, direção de arte e direção (Luhrmann tem um estilo que preza muito a agilidade, com cortes rápidos). Não há muitas diferenças no enredo, então as mudanças são praticamente técnicas – e, sim, muito positivas. Gatsby ganhou não só mais glamour e atualidade, mas uma melhor caracterização no cinema. Ponto para o diretor que transformou um clássico da literatura numa obra pop moderna, sem perder de vista as questões que podem ser suscitadas. 

Um comentário em “O Grande Gatsby

  • 15 de junho de 2013 a 03:27
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    curti muito o filme Fabri, concordo plenamente! E excelente atuação de Leonardo DiCaprio!

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