Juan Dos Mortos

O que uma comédia cubana sobre um apocalipse zumbi tem de diferente com relação a tantos filmes de temática semelhante, na filmografia hollywoodiana, em especial? A curiosidade por como o cinema cubano lidaria partindo de um pressuposto tão comum deve levar muitos a assistir a “Juan Dos Mortos” (Juan De Los Mortos), de Alejandro Brugués. Entretanto, o filme não escapa dos clichês e aparenta não oferecer nada muito além do que já conhecemos do cinema americano.

O Juan do título é um “zé ninguém” que ganha a vida sem fazer muita coisa. Logo, ele se vê no meio de um apocalipse, e a população de Cuba não tarda a se tornar majoritariamente zumbi. Com o inimigo para todos os lados, Juan tem uma ideia empreendedora: criar um serviço de mortes por aluguel, uma espécie de “caça-fantasmas”, como no filme de 1984. Para isso, ele treina e lidera uma trupe de desajeitados.
Co-produzido por investidores da Espanha, o longa parece ter sido saído dos Estados Unidos: é como um filme B americano ambientado em Cuba – a inspiração é clara. Sangue, exageros, piadas com negros, com gordinhos tapados e com travestis, mulheres gostosas e mortes gratuitas. A sensação é de assistir a um Todo Mundo Em Panico, ou qualquer comédia escrachada de humor negro que lota salas ao redor do mundo, satirizando o terror e a ficção científica (Contágio, Invasores, A Hora Da Escuridão – enfim, exemplos não faltam). Só que, geralmente, o público ri até a barriga doer nessas comédias pastelão, coisa que não acontece em Juan dos Mortos, em momento algum.
Há uma crítica social embutida, que parece ser a única coisa que realmente dá algo de diferente: o povo e o regime cubano são criticados por meio de piadas, a maioria bem forçada (uma cena com as bandeiras dos EUA e Cuba é impagável, porém). Em meio a epidemia de zumbis, a mídia cubana repercute que eles são “dissidentes imperialistas” pagos pelos Estados Unidos, por exemplo. Outro: o povo cubano é taxado como preguiçoso, pretexto para várias piadinhas. E, incongruentemente, os personagens principais são mostrados como pessoas mercenárias e oportunistas, no melhor estilo capitalista. O grupo é composto pelos grandes heróis do filme, com a exceção da cena em que são salvos por – não diga! – um americano, em frente ao monumento a Che Guevara.
As críticas a Cuba são tão razas que mais parecem uma grande ironia aos críticos do país. A crítica por meio da piada, do exagero, deixa margem a essa dupla interpretação. Será que Juan dos Mortos é tão superficial quanto parece? Se pensarmos a ideia de vender a morte “dos seus entes queridos” (o slogan de Juan) como uma sátira ao capitalismo, não. Ao escrachar Cuba de maneira nítida, o filme pode ter tentado o efeito inverso. E paira a dúvida se o que vimos é uma obra pró ou contra o regime cubano ou nem um, nem outro – só se zomba o governo dos Castro, mas a crítica aos EUA parece vir nas entrelinhas. Se os idealizadores pensaram que poderia levar a esse tipo de dúvida no público internacional, que pouco conhece o país, estão de parabéns. Afinal, se Cuba é mesmo uma “ditadura” cujo noticiário – no exagero da ficção, claro – informa que os zumbis são pessoas contra o regime pagas pelos americanos, como mesmo que esse filme percorreu o mundo e foi parar nas telas do Reserva Cultural, em São Paulo, por exemplo?
O filme tem um bom ritmo, funcionando como aventura, e o enredo tem várias situações engraçadas, algumas até inteligentes, embora as piadas limitem-se ao humor negro e escatológico. É aquela velha comédia engraçadinha para quem gosta de ver sangue para todos os lados e que será logo esquecida. As críticas a Cuba não propõe nenhuma reflexão pois ficam no plano da superficialidade, mas, ao olhar o filme com mais profundidade, parece clara a critica ao capitalismo. Quem percebê-la vai conseguir ver além dos clichês. Quem não, vai achar que o longa teve dedo dos EUA, como informava a TV cubana sobre a epidemia zumbi, ou comprar a ideia de que os cubanos só não vão para Miami porque lá teriam que trabalhar.

ps: as imagens da cidade de Cuba são lindas!