A Espuma dos Dias

A obra mais famosa de Michel Gondry, Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, traz uma envolvente história de amor que se constrói por meio de um embaralhado de sonhos e lembranças, decorrente da tentativa do personagem de Jim Carrey apagar da cabeça sua ex-namorada, interpretada por Kate Winslet. Ganhador do Oscar de Melhor Roteiro, o filme jogava o casal num caleidoscópio surreal de situações, a medida que nos contava toda a trajetória do casal, sem respeito à linearidade. Em A Espuma dos Dias (L’écume des jours), o diretor novamente apresenta uma história de amor com toques surrealistas, partindo agora de um romance de Boris Vian.
Colin (Romain Duris) é um homem que nunca trabalhou na vida, por ter herdado uma fortuna. Seu sucesso com as mulheres, entretanto, não é tão grande quanto o de seu cozinheiro, Nicolas. Mas a falta de habilidade do homem na hora da paquera acaba despertando o interesse de Chloë (Audrey Tautou), e eles não tardam a se encontrar novamente. Tudo vai como num conto de fadas até uma flor de Lotus se instalar nos pulmões da dama.
A primeira sensação que o longa causa é de estranheza. Gondry exagera ao criar seu mundo mágico, que beira o infantil, e faz questão de apresentar todas as engenhocas produzidas pela direção de arte, deixando os personagens em segundo plano. Até o momento em que a personagem de Tautou aparece, Gondry não apresenta nada que a Disney – ou qualquer outro estúdio em suas obras voltadas ao público infantil – não tenha feito.
À medida que o romance se desenvolve, a obra de Gondry fica mais interessante e o mundo fantasioso criado começa a fazer sentido na trama, dando o tom de encantamento procurado para o relacionamento do casal. Mas o que até o momento era apenas um filme água com açúcar com umas bizarrices vira algo muito melhor a partir da reviravolta gradual causada pela descoberta da flor. É desconstruindo o mundo com o qual Gondry tentava encantar o espectador que A Espuma dos Dias acerta a mão. O tom de fantasia e as engenhocas surreais se encaixam perfeitamente com a parte “mais real” do enredo, chegando, em alguns detalhes, até a surpreender o espectador. 
Ao contrário de Brilho Eterno, que tinha em seu roteiro genial um quebra cabeça que transformava uma história de amor simplória numa emocionante jornada, aqui Gondry parece mais preocupado em recriar o ambiente surrealista do livro em que se baseia. Ele torna esses objetos (e as pernas que se alongam) o diferencial da obra. Embora o resultado final seja bastante positivo, fica a sensação de que, se o mundo criado não fosse tão mágico (ou aquele ratinho irritante aparecesse menos), o filme pudesse mexer mais com as emoções dos personagens, e, consequentemente, com as do espectador.