Cinema Argentino: “Faltam Mais Vedetes”

Nos festivais de todo o mundo, o cinema argentino se destaca em relação aos concorrentes sul-americanos. Enquanto o Brasil nunca levou um Oscar, a Argentina tem entre suas produções dois grandes ganhadores: A História Oficial, de Luis Puenzo, e O Segredo de seus olhos, de Juan José Campanella. Como Cynara Menezes, da CartaCapital, bem colocou em seu texto, “Os viralatas de celulóide”, os brasileiros invejam o cinema dos hermanos – “sentimos vergonha, rimos de nós mesmos”, escreveu a jornalista. No Brasil, cinema argentino é sinônimo de qualidade, boas histórias e, sobretudo, de obra intelectual. Quais seriam as razões do sucesso do cinema argentino? E como os portenhos se relacionam com a sua produção nacional?

Em Buenos Aires, ao redor da Universad del Cine, uma faculdade exclusivamente de cinema, encontra-se um ambiente jovem que contrasta com a arquitetura antiga e parisiense da cidade. Lá, todos tem algo em comum: apreço pela sétima arte. Na livraria especializada, uma estudante de cinema de outra universidade afirmou gostar da produção de seu país. Outro jovem, aluno da Universidad del Cine e fã de David Lynch e Sam Raimi, revelou o que, para ele, é o panorama da produção argentina: uma série de filmes feitos de maneira a arrecadar o máximo gastando o mínimo – desses pouco são “aproveitáveis” artisticamente. Sucesso? Para ele, o cinema argentino está mitificado.

“Você acha que o cinema argentino faz sucesso?”, respondeu ironicamente o diretor da universidade, Bebe Kamin, também cineasta, ao ser questionado sobre o tema. Ele explicou que apenas 8% do tempo de exibição das salas argentinas é ocupado com produções do país. Dos filmes produzidos por ano, que alega ser cerca de 100, pouquíssimos tem alguma repercussão comercial ou artística. Só os muito bons, com propostas que interessam e sejam comprometidas com a sociedade, fazem sucesso, o que é muito mais significativo no resto do mundo, do que em seu país de origem. Entre esses filmes estão os de Lucrecia Martel e Pablo Trapero, exemplificou o acadêmico.

A reflexão de Kamin sobre a produção argentina mostra que a situação desse cinema não é tão diferente da brasileira. Há pouco espaço nas salas, influência do filme americano comercial e uma grande quantidade de filmes irrelevantes. Nesse cenário, uma pequena minoria que se destaca pela qualidade ou por construir uma identidade de maneira ousada, assim como no Brasil, onde um exemplo recente é A Febre do Rato, de Claudio Assis, sem contar os diretores já consagrados, como Walter Salles e Fernando Meirelles, reconhecidos internacionalmente.

Kamin acha que se deve melhorar a política cinematográfica na Argentina. Incentivar a produção não é suficiente: é preciso hierarquizar os projetos, facilitando a produção dos “mais valiosos”. Para Rodrigo Moreno, diretor premiado no festival de Sundance e de Berlim, o maior problema do cinema argentino é também sua maior virtude: não há tradição – os cineastas não têm base sólida para se apoiar. O que resulta em obras que partem de uma realidade que, em sua opinião, não passa de falsa interpretação. Moreno não gosta do cinema argentino em geral e não se inspira nele em suas obras.

Questionado sobre o, assim chamado, “sucesso” internacional dos longas, ele explica que esses filmes pertencem ao ciclo do cinema urbano e de classe média na América Latina, o que chama atenção pois quebra o estigma do cinema latino-americano que só retrata problemas sociais. Sobre a recepção argentina a essas obras, ele pensa que o público é cético em relação a elas, devido ao “espírito argentino individual e crítico”.

Jovens amantes de cinema, como Fabio Fontana, que trabalha num bar na rua da Universidad del Cine, têm opiniões diferentes. Enquanto conversava sobre cinema latino com sua colega uruguaia Andrea Silva, mostrou-se muito mais otimista com a cinegrafia de seu país. Acha que melhorou na última década, mas não por influencia da crise de 2001, e sim porque foi se aperfeiçoando. Ele vê influências do cinema americano, que também evoluiu com o passar dos anos, com “finais abertos, melhor trabalho de personagens e histórias mínimas”. Para ele, o papel determinante para a produção nacional são os festivais estrangeiros – os filmes precisam fazer sucesso fora para impulsionar o público argentino. Enquanto Moreno considera que nessas produções mostra-se uma falsa realidade, Fabio acredita que trazem ensinamentos sobre a vida, por meio dos personagens.

O que falta nas produções argentinas é, para Fontana, mais mulheres ou, em suas palavras, “vedetes”. Ele também quer ver efeitos especiais sendo usados, não em produções megalomaníacas como as hollywoodianas, mas em obras com teor mais artístico, como O Labirinto do Fauno, do mexicano Guillermo Del Toro. Já a professora brasileira formada em cinema na Universidade de La Plata, Livia Stevaux, acha uma grande falha não se produzirem filmes de ação.

Em entrevista, Stevaux afirmou apreciar muito a produção local, por causa principalmente dos roteiros, cujos diálogos são uma virtude e os personagens são fortes e complexos. Ela aponta para a facilidade em construir histórias que vem da “grande tradição literária e de estudos de narração”. Considera que o cinema argentino faz sucesso pela qualidade desses roteiros, mas admite que é tudo muito relativo: já escutou muitas vezes comentários do tipo “não existe” ou “o cinema nacional é horrível”; entretanto, acredita que a rejeição às produções locais é menor do que no Brasil.

Por fim, é necessário ressaltar os números oficiais : segundo a publicação Haciendo Cine, edição de junho, nos primeiros cinco meses de 2012, estrearam 42 filmes argentinos. Desses, apenas cinco foram exibidos em mais de quarenta salas. Entretanto, isso pode mudar muito em breve: o governo Kirchner, por meio do secretário de comércio Guillermo Moreno, aprovou uma lei que une as grandes distribuidoras cinematográficas e os produtores locais à força – elas serão obrigadas a parar de negligenciar a produção nacional e se comprometerem a dar um novo fôlego para a distribuição do cinema local. Isso tudo pode ser o primeiro passo para a política cinematográfica que Bebe Kamin tanto acha importante.

Conclui-se que, apesar de maior prestígio internacional e nacional, o cinema argentino também passa por problemas semelhantes ao brasileiro. Se esse prestígio pode ser considerado um “sucesso”, a verdade é que há muita divergência a respeito desse tema. Ao estudar esse panorama com os cinéfilos da Argentina, percebe-se que a opinião sobre a produção nacional e seu sucesso não é unânime entre os portenhos.

| Gabriel Fabri

Essa reportagem foi realizada em Buenos Aires (Argentina) em julho de 2012, durante o programa de formação Jornalismo Sem Fronteiras.

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