Ferrugem e Osso

Por Gabriel Fabri
O diretor Jacques Audiard se consolidou no cinema francês com o sucesso estrondoso de seu último longa, O Profeta, que levou o grande prêmio do juri em Cannes e uma indicação ao Oscar. Ao focar em um muçulmano encarcerado, o filme mostrou, entre outros temas políticos e psicológicos, a derrocada moral desse personagem, que matou um homem para ascender socialmente na cadeia. Em Ferrugem e Osso, Audiard traz agora dois personagens tentando seguir em frente com as suas vidas, e, sem abandonar a preferência por temas como o crime e protagonistas desestabilizados de O Profeta, apresenta um belo drama de superação.
Na trama, Ali (Matthias Schoenaerts) é um homem desempregado que resolve se mudar, com o seu filho de 5 anos, para a casa da irmã. Durante um “bico” como segurança de uma boate, conhece a jovem Stéphanie (Marion Cotillard), após ela sair machucada de uma briga. Domadora de baleias num parque aquático, a moça acaba perdendo as duas pernas num acidente, dias depois, durante uma apresentação. Solitária e sem rumo, ela entra em contato com Alain e os dois iniciam uma relação de amizade.
A montagem do filme chama a atenção, pois a câmera parece buscar sempre um ângulo diferente sobre as cenas, ora se distanciando, ora se aproximando de um personagem, intercalando planos num ritmo mais próximo do cinema americano. Tal ritmo opõe-se à dinâmica de contemplação que a trama exige, e desse casamento de opostos sai um longa que nunca deixa de ser interessante.
Esse é apenas um dos aspectos positivos da obra, que possui um enredo simples, mas em alguns momentos surpreendente, com duras reviravoltas que lembram vagamente a frieza de Michael Haneke (Amor). Ao tratar da jornada de duas pessoas com problemas bastante diferentes, o longa discute temas como a relação de pobreza e crime ou o olhar preconceituoso contido na piedade com a qual a sociedade trata pessoas com deficiências. Mas o tema principal aqui, o que parece evidente em algumas sutilezas do filme, é a superação das adversidades – não só física, mas também social e emocional. É um longa de superação, explícito logo no começo, na primeira cena de banho de mar, até o belo final. Dessas passagens, é de uma ternura a cena em que Stéphanie encara a baleia que tirou suas pernas, mas a permitiu que tomasse um novo rumo em sua vida; ou a cena em que o uso da música Firework, de Katy Perry, entra em perfeita sintonia com essa nuance do filme.   
O envolvimento com os personagens é fruto de eles serem muito bem construídos e aproveitados: todos, no núcleo principal, têm uma importância fundamental para a trama. Esse é talvez o ponto mais alto do filme, que deve ser creditado também às atuações. Tanto Cotillard quanto Schoenaerts estão impecáveis em seus papéis, num trabalho impressionante. 
Ferrugem e Osso é um filme delicado, com duros e impressionantes pontos de tensão. Um enredo excelente, combinado com atuações e direção de alto nível, resultam numa obra desconcertante e, ao mesmo tempo, encantadora.

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