Bling Ring – A Gangue de Hollywood

Por Gabriel Fabri

O último filme de Sofia Coppola, Um Lugar Qualquer, apresentava de maneira um tanto peculiar a crise de um ator de meia idade, no auge do sucesso, que mantinha um relacionamento superficial com sua filha pequena (e com todas as mulheres de sua vida também). A obra mais autoral de Coppola até então, diretora que já havia tratado de temas semelhantes no indicado ao Oscar Encontros e Desencontros, trazia constatações inquietantes e críticas sutis ao universo da fama e ostentação. Em Bling Ring – A Gangue de Hollywood, o tema se faz presente mais uma vez, agora acompanhando a história real de jovens da elite de Los Angeles que queriam ter a vida de seus ídolos – ou, pelo menos, a parte mais atraente dela: o reconhecimento e o glamour.

Baseada na reportagem “The Suspects Wore Louboutins”, de Nancy Jo Sales (Vanity Fair), a trama conta a história de dois amigos, cujos nomes reais são Nick Prugo e Rachel Lee, que iniciam uma série de roubos nas mansões de pessoas famosas. Não tarda a outros jovens entrarem nas aventuras, que incluiu roubos a casas de personalidades como Lindsay Lohan, Paris Hilton, Orlando Bloom e Rachel Bilson. Nesse grupo de adolescentes ricos está Alexis Neiers, a “Nicki” no longa, interpretada de maneira excelente por Emma Watson (da série Harry Potter), de longe a melhor atriz do filme.
Apesar de ter um enredo muito pop, digno de um blockbuster hollywoodiano, Sofia Coppola mantém as  marcas autorais que se tornaram mais evidentes em Um Lugar Qualquer. A câmera fica parada, proporcionando planos estáticos, que são muito pouco alternados. Esse tipo de plano, geralmente identificado com um cinema mais reflexivo, pode parecer uma combinação estranha. Todavia, funciona como um belo contraponto ao frenesi dos personagens, da fama, do crime, das festas, da juventude, da trilha sonora hip hop e da era do Facebook, onde tudo é muito rápido, efêmero e superficial, sempre exposto em público. 
Os dois filmes estão intimamente conectados. Basta pensar nas diferenças entre as cenas de pole dance: no primeiro, vimos a decadência de quem a assiste (o público, inclusive, pois se tratava de uma câmera subjetiva) e em Bling Ring, a ascensão (ou decadência?) de quem o dança. Opostos, mas intimamente ligados. A casa do ator de Um Lugar Qualquer poderia ser facilmente assaltada pela gangue, se ele já não fosse um ator de meia idade.
Se em Um Lugar Qualquer o que estava em jogo era se a fama vale mesmo a pena, considerando o que se abdica em nome dela, aqui a crítica é aos sintomas do culto à celebridade. O questionamento é claro: quais são os valores em voga na sociedade ocidental? A história desses jovens mostra que são a fama, a beleza, o dinheiro e o glamour. E o filme constrói ótimas sacadas para discutir isso. Por exemplo, a cena em que a mãe de Alexis segura um cartaz de Angelina Jolie para inspirar as filhas. 
Bling Ring também aborda questões muito atuais, como o uso do Facebook, onde todos agem como celebridades, e a questão do paparazzi, sutilmente colocada. Um recurso, aliás, interessante, é a pesquisa de vídeos e fotos de famosos que saíram na mídia projetada na tela. Uma forma de mostrar personalidades como Lindsay Lohan, sem que ela tenha que fazer uma aparição especial como as de Paris Hilton e Kristen Dunst. Essa última numa autorreferência a outros trabalhos de Coppola, em especial As Virgens Suicidas, que também aborda questões semelhantes e atuais, relacionadas aos problemas da adolescência: o bullying, a exclusão social e a ausência de pais. Que pai dos integrantes da Bling Ring desconfiava dos roubos, mesmo?
Sofia Coppola teve um feeling incrível de como essa história real tem um viés contestador de muitas nuances da sociedade. Toda essa crítica está estampada em Bling Ring – A Gangue de Hollywood, um filme que mostra o quanto a juventude de hoje é problemática, mas, ao mesmo tempo, fascinante. Coppola sabe aproveitar a chance de fazer um filme que seduz e repudia ao mesmo tempo. Ela mostra o quanto esse estilo de vida é sedutor e divertido, e ao mesmo tempo vai além dessa superficialidade. A cena final, fidedigna à personagem na vida real, é a síntese perfeita para um filme em sintonia com o mundo contemporâneo.

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