A Religiosa

Por Gabriel Fabri

O mais recente filme de Bruno Dumont, Camille Claudel 1915, apresentou Juliette Binoche enclausurada em um hospício, um ambiente onde a personagem era privada de sua liberdade e que lhe proporcionava um desconforto e uma infelicidade angustiantes. Incompreendida por todos, especialmente por quem a mantinha lá dentro, a personagem poderia não ser consciente de sua própria loucura, todavia tinha essa consciência com relação a dos outros. Ao assistir a A Religiosa, de Guillaume Nicloux, é impossível não pensar na obra de Dumont, com a qual possui semelhanças profundas.

Adaptação do livro de Denis Diderot, o filme de Nicloux conta a história de Suzanne (Pauline Etienne), uma adolescente que acaba de descobrir que seus pais querem que ela permaneça mais um ano no convento, para então fazer os votos de freira. Entretanto, a menina não acredita ter vocação para tal, e não quer ficar nem mais um dia naquele local. Apesar de tentar se rebelar e tomar as rédeas de sua própria vida, seus esforços são, à princípio, sempre inúteis.
Assim como Dumont em Camille Claudel 1915, Nicloux cria um mise en scene totalmente claustrofóbico, tornando o convento um ambiente hostil. A repressão à personagem reflete como um incomodo no espectador, proporcionado não só pela convincente atuação de Pauline, mas por aspectos como a ausência de trilha sonora (as músicas são todas intradiegéticas e o badalar dos sinos ou o barulho dos livros, sendo fechados com força, propositalmente incomodam), por exemplo, dando uma verossimilhança à situação da personagem.
O clima denso é propício à questão principal do filme, a crítica às instituições vigentes, em especial a Igreja Católica. O sofrimento de Suzanne, que também deve ser creditado a sua família – outra semelhança com o filme de Dumont -, e suas tentativas de emancipação expõem uma contestação nítida aos dogmas e a atuação da Igreja e de seus devotos. Na cena em que a personagem faz o ritual para se tornar freira, um manto branco com uma cruz vermelha é colocado em cima de seu corpo deitado, dando a sensação de um enterro simbólico, ao invés de uma conquista. As mazelas e hipocrisias são de uma crueldade evidente, que atinge não só o personagem como também o espectador, que pode ser provocado a sentir angústia ou, até mesmo, repulsa a certas atitudes dos coadjuvantes.
Entretanto, na terceira parte do filme, o clima muda completamente e A Religiosa busca uma nova identidade. Humor é adicionado, e a trama fica mais leve, embora não menos questionadora. A crítica vira quase uma chacota dos dogmas católicos, sendo que essa provocação lembra muito os loucos de Camille Claudel 1915 – o convento é mais que uma prisão, é um hospício. Nesse ponto da história, um outro filme de Dumont merece ser comparado: em O Pecado de Hadewijch, a protagonista se dizia casada com Deus. Loucura? Em A Religiosa, Suzanne é tão devotada que dá indícios de que sente o mesmo. Por isso, nega ou não liga para o erotismo diante de si. A versão de A Religiosa de Jaques Rivette (1966) leva essa ideia ao extremo no final – aqui, Nicloux opta por um desfecho menos impactante, mas mais funcional, por apostar na simplicidade, deixando pontos em aberto.
O mais curioso de A Religiosa é ver como a menina que despreza o convento e a repressão de suas autoridades é, no fundo, a mais católica entre todos em cena. Ao querer abrir mão de ser freira, ela o faz com sinceridade. Vitimizada o longa todo, numa narrativa cíclica que a troca incessantemente de uma prisão para outra, ela é quase uma santa. O fato de ela questionar as verdades que lhe são impostas a torna não pecadora, mas uma pessoa mais lúcida em relação as contradições dos discursos das outras religiosas.
Nicloux tece com firmeza as críticas de Diderot, de maneira explícita. A Religiosa é um filme com atuação, direção e enredo marcantes, que promete gerar bastante inquietação e, a partir daí, uma série de reflexões pertinentes.