Entrevista com Pablo Giorgelli, diretor premiado em Cannes

Na noite de quarta-feira (4), o argentino Pablo Giorgelli recebeu o Pop with Popcorn para uma entrevista exclusiva. Premiado com a Câmera de Ouro em Cannes por Las Acácias, que estreia com exclusividade no Cinesesc nessa sexta (6), Pablo acredita que sua obra é uma tentativa de entender a si mesmo.

O filme conta a história de um caminhoneiro que transporta madeira do Paraguai para a Argentina. Nessa viagem, entretanto, ele deve levar uma mulher completamente desconhecida e o seu bebê para Buenos Aires.

Leia abaixo os melhores momentos da conversa:

Gabriel Fabri: O seu filme é um road movie onde dois desconhecidos viajam juntos, quase sem trocar palavras. Las Acácias é uma crítica ao perfil individualista e solitário do homem?

Pablo Giorgelli: Em algum ponto acredito que haja algo disso. Mas para mim esse é filme é sobre o vazio interior de um homem – que está sozinho, que tem dificuldade de se comunicar -, e é sobretudo sobre a paternidade. Esse é o eixo central: como este homem se reencontra consigo mesmo e com sua paternidade perdida.

Depois, o filme tem um olhar crítico, talvez, ao mundo masculino, no sentido de que muitas vezes, nós homens não podemos conectar ou entender algumas questões mais sensíveis ou mais profundas. Muitas vezes o mundo masculino é um mundo mais prático.

Acredito que Las Acácias é resultado de muitos anos de tentar entender a mim, de me conhecer. Essa crítica não é a outros, se não uma crítica a mim mesmo, em outra época. Fui aprendendo muito com as derrotas, perdi muito coisa no caminho por não me conectar comigo mesmo, por não saber como fazer isso. O filme é uma tentativa de explorar alguns temas que até o momento não tinha entendido, não tinha conseguido conectar. Como dizia, tem a ver com a paternidade. Com meu pai, com o pai que eu não era, e agora acabo de ser pai, é tudo a mesma coisa de algum modo.

GF: Como o falecimento do seu pai se relaciona com o filme?

PG: Foi um pouco de uma motivação inconsciente que gerou esse filme. Ela vem daí: uma época de crise pessoal, afetiva, pela doença do meu pai, minha separação. Me passaram muitas coisas nos últimos dez anos. Todas essas crises ao mesmo tempo, resultam nesse filme, algo que eu não tinha conhecimento quando comecei a fazê-lo. Pouco a pouco fui descobrindo que ele tinha a ver com essa etapa de solidão e angústia da minha vida.

GF: O filme aborda alguma outra crítica menos pessoal, mais social? Talvez relacionada com os países escolhidos (Paraguai e Argentina)?

PG: Num segundo plano, há um olhar sobre o aspecto social. Entra os temas da viagem, da imigração e do lugar da mulher na sociedade. A mãe e a filha aparentemente são as mais frágeis e terminam sendo as mais fortes. Elas são mais inteligentes e fazem o homem crescer durante o percurso.

Quando apareceu a ideia da viagem, imediatamente pensei no Paraguai, um país que não conhecia muito até fazer o casting para o filme, mas pelo qual tinha um carinho enorme. Em Buenos Aires, a comunidade paraguaia é grande e nem sempre os imigrantes são bem vistos em cidades grandes, em geral. Há uma parte da população que os rejeitam, os consideram “de segunda”, tem medo deles, e isso é algo que me entristece. Além disso, me comove a história de pessoas que deixam seu lugar com o sonho de buscar uma vida melhor.
GF: Há uma falta de comunicação entre os personagens que reflete algo muito presente na vida urbana…

PG: Isso é algo terrível, não? Acredito que é um dos grandes problemas da nossa sociedade moderna e das nossas famílias. A maior parte dos problemas de todas as pessoas tem a ver não com a falta de trabalho, não com o capitalismo. Tem a ver com a falta de comunicação. Muitas das coisas que nos passam, é porque não podemos nos comunicar, não sabemos como. Acreditamos que nos comunicamos, mas não o fazemos com profundidade, de maneira franca. Nos relacionamos, mas a comunicação com o outro, a conexão, acredito que acontece pouco. É necessário um esforço.

Acredito que tenha a ver com a educação. Não nos ensinam a se comunicar com o outro. Os problemas decorrentes são enormes: pessoas frustadas, sozinhas, com medo. E volto ao tema da imigração: essa rejeição que há com os imigrantes definitivamente é medo. Mas é porque não os conhecem… Quando falamos das coisas horríveis que acontecem no mundo, a violência, a fome, a guerra, não há nenhuma justificação para isso. Tudo é o medo e a impossibilidade de se conectar com o outro.

É preciso uma revolução de consciência, de cada um tomar consciência do que está fazendo no mundo, o que é ou não é importante. É preciso desarticular muita coisa, pois a sociedade nos põe diante de valores que não são reais, como o dinheiro e a beleza. Não há nada aí, mas todos perseguem essas coisas. Eu gostaria que de algum modo o filme estimule uma reflexão sobre tudo isso, e também à respeito da família e dos filhos.

GF: Esse é o seu primeiro filme. Como foi o processo de concepção?

PG: Foi um processo demorado, pois me tomou cinco anos, e foi sobretudo um longo processo de aperfeiçoamento. Nunca me apressei em etapa alguma. Primeiro foram dois anos escrevendo a história, só então encontrei a alma do filme. Demorei quase um ano para escolher os atores, onde tinha certeza que não poderia errar. A chave do filme é o elenco, não? A edição foi feita em conjunto com a minha mulher, em nossa casa, e durou oito meses. O mais curto foram as filmagens, só cinco semanas.

Quando aconteceu o milagre de terem convidado o filme para ser exibido em Cannes, tudo o que passou depois foi inesperado. Algo que nunca tinha imaginado. A boa repercussão internacional foi uma surpresa, eu não tinha claro, quando terminei a obra, se ela funcionava ou não, se eu gostava dela. Não sabia.

GF: E você gostou do seu filme?

PG: Em um primeiro momento, não sabia. Estava nervoso. Logo, teve um período em que eu gostava. Hoje, há coisas que não gosto muito, que não me convencem. Mas sinto que o filme tem uma alma que termina superando todas as suas imperfeições. Superadas pelo coração que tem o filme. O sucesso tem a ver com essa alma e com as reflexões que o filme propõe, à respeito de temas universais.

GF: Pensando no cine argentino como um todo, como você enxerga Las Acácias na filmografia?

PG: Não sei o que dizer… É muito difícil olhar para seu próprio filme num contexto. Nunca me fizeram essa pergunta e nunca pensei nisso. É um filme clássico e convencional, nada original, não estou inventando o cinema ou algo parecido. E dentro do cinema argentino, eu gosto das histórias. Mas o cinema argentino é muito diversificado hoje. São feitos muitos filmes, de diferentes estilos, o meu é só um a mais.

GF: Você tem algum projeto novo em mente?

PG: Tenho algo que estou escrevendo muito lentamente. Estou num momento de angustia, pois não o vejo ainda. Não o encontro. Tenho a ideia, a trabalho, mas não consigo vê-lo. É um momento de incerteza angustiante. Não gosto de nada, um dia acho que tenho algo, no outro não. Estou no começo de um processo, ao longo dos anos irei encontrando o filme. Acabo de ser pai de uma filha, então estou escrevendo pouco e aprendendo a ser pai.

GF: Quais temas você quer debater nos próximos longas?

PG: Meus filmes, pelo menos os próximos, e não sei se todos os meus próximos, serão sempre sobre o mesmo: sobre a família, sobre as relações entre pais e filhos, sobre as pessoas. Esses são os temas que me interessam hoje, quase exclusivamente. Me chegaram alguma propostas para fazer outros filmes, mas não senti que era o momento para fazer outra coisa que não seja mais pessoal.
GF: O que você conhece do cinema brasileiro?

PG: Não pude ver muitos filmes brasileiros, pelo mesmo motivo que acontece por aqui: não chegam tantos filmes argentinos ao Brasil, muito poucos, por isso estou muito contente que o meu trabalho finalmente está estreiando por aqui. Em Buenos Aires, não chegam muitos longas brasileiros, e isso se passa em toda América Latina. Só vi alguns em festivais, e os que eu vi me pareceram muito bons.

Há uma geração de diretores novos, que estão fazendo trabalhos lindos, e acredito que esse seja um movimento em toda a América Latina. Sinto que há uma força de ter histórias para contar, algo a dizer, que não há mais em outros países. Há algumas filmografias que me parecem um pouco mais conservadoras e esgotadas. Na América Latina, sinto uma energia nova de renovação. Brasil, Argentina, Uruguai e o Chile estão fazendo filmes incríveis. Os poucas que vi do Brasil – Histórias que só existem quando são lembradas, O Céu de Suelly, O Som ao Redor, Trabalhar Cansa, entre outros – me encantaram. Quero ver mais.
Las Acácias estreia hoje (6 de setembro), no Cinesesc, em São Paulo.

Um comentário em “Entrevista com Pablo Giorgelli, diretor premiado em Cannes

  • 10 de janeiro de 2014 a 11:58
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    Excelente entrevista.

    O que me impressiona é como o cinema latino, como foi dito na entrevista, não se ajuda tanto quanto deveria.

    Realmente filmes latino normalmente que tomo conhecimento são somente aqueles que se destacaram em alguma premiação e por isso tiveram a chance de serem exibidos por aqui.

    Apesar de cada vez mais terem festivais de cinema, o foco em sua maioria são em filmes americanos ou da Europa, tirando a chance de filmes latinos. Alias o próprio filme brasileiro no Brasil quase não tem espaço, tirando os blockbusters com atores já conhecidos do público por novelas e afins.

    É algo a se pensar.

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