Bastardos

Por Gabriel Fabri
Exibido na Mostra Un Certain Regard do festival de Cannes, Bastardos (Les Salauds), novo filme de Claire Denis (35 doses de rum), tem um título que representa bastante a obra, embora a diretora passe longe de pregações morais. “Salaud”, segundo o dicionário Michaelis, significa “canalha”, em francês. O plural enigmático da palavra se encaixa com perfeição na crueza do filme de Denis.

A trama acompanha o marinheiro Marco Silvestri (Vincent Lindon), que retorna à Paris após o suicídio do cunhado. Encontra a sua família totalmente desestabilizada: sua irmã está à beira da falência e sua sobrinha está no hospital por ser constantemente abusada pelo pai. Marco tenta dar apoio a elas, ao mesmo tempo em que começa a sentir atração pela sua vizinha, Raphaelle (Chiara Mastroianni), esposa do sócio do falecido. Bastardos é inspirado numa série de filmes noir dos anos 1950, realizados por Akira Kurosawa em parceria com Toshirô Mifune.


Essa história é intrigante desde a sua cena inicial, com a sucessão das seguintes imagens: chuva forte caindo, um close-up em um velho melancólico, um corpo embalado no chão da rua para ser levado, uma bela jovem completamente nua andando pelas ruas de Paris. A trama vai se construindo aos poucos, uma pista por cena, mantendo sempre essa posição de forçar o espectador a montar um quebra-cabeça, mesmo que não haja nenhum grande mistério ou segredo no enredo. A estrutura é permeada por alguns flashbacks (a menina andando nua é mostrada mais duas vezes) e até por uma cena aparentemente desconexa envolvendo uma bicicleta, mas que pode ser, ou não, um intrigante flashfoward. O final, cruel e surpreendente, define bem o filme que é Bastardos.

A fotografia usa tons escuros, afinal, a última coisa de que se trata é de uma obra feliz. O uso de close-ups é constante e a naturalidade com a qual Denis dirige cenas de morte, como se fosse um simples diálogo, é marcante, e reforça a ideia de direção “crua” de Denis.


Quando veio ao congresso da Revista Cult em 2012, a cineasta afirmou que um filme “não é uma lição de moral, é uma preposição”. O nome do filme pode até invocar um julgamento moral, mas é nele que está refletida a maior preposição do filme. Quem são os salaudes nessa história? Cada um pode encontrar a sua resposta a essa questão, mas o que Claire parece determinada a falar faz eco a um pensamento da alemã Hannah Arendt, quando, ao cobrir o julgamento de um nazista de alto escalão, percebeu que ele não era um monstro, mas sim, uma pessoa normal.