Entrevista com Georg Maas, diretor de “Duas Vidas”, filme representante da Alemanha no Oscar

A 37ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo acabou, mas a nossa cobertura ainda não!

Após a primeira exibição de Duas Vidas, longa representante da Alemanha no Oscar 2014, e a certeza de ter visto um dos melhores filmes da Mostra, o Pop With Popcorn conversou com o diretor do filme, Georg Maas.

Sinopse do filme, tirada do site oficial da Mostra: “Em 1990 na Europa, o Muro de Berlim acabou de cair. Katrine, que cresceu na Alemanha Oriental, mas que já mora na Noruega há mais de 20 anos, é uma “criança da guerra” – fruto de uma relação amorosa entre uma mulher norueguesa e um soldado ocupante alemão durante a Segunda Guerra. Ela desfruta de uma vida feliz com a mãe, o marido, a filha e a neta. Mas quando um advogado pede que ela e sua mãe testemunhem num julgamento contra o estado norueguês a favor das crianças da guerra, ela resiste. Aos poucos, uma teia de segredos é desvendada.”

Confira a seguir a breve entrevista, feita na correria e no improviso entre sessões:

Gabriel Fabri – Qual a principal questão que você quis abordar com Duas Vidas?

Georg Maas – O tema principal do filme é o julgamento, que está sempre relacionado com a violência. O julgamento é a base para a guerra. Nós somos bons, eles são maus… é sempre tudo sobre “nós e eles”. Acredito que ao assistir ao filme o público perde a capacidade de julgar, você não julga mais a personagem principal no final. Essa é a segunda coisa que considero mais importante no filme.

A primeira é a jornada que o público percorre junto ao filme. Nós tentamos fazê-lo como um quebra-cabeça, onde cada elemento da história tem uma conexão com a realidade. E eu queria que a audiência fosse bastante ativa. Então quando você vê o longa, você está contando a história para si mesmo, com base nesses pequenos elementos captados da tela, não sou eu que a conto. Você está sempre se questionando, até completar a história no final.

GFQual o maior desafio para fazer esse filme?

GM – Nos levou dez anos para fazer Duas Vidas. E por oito anos não estava claro que nós conseguiríamos fazê-lo, pois foi difícil financiá-lo. Escolhemos como personagem principal uma mulher que é ao mesmo tempo culpada e vítima. Fizeram coisas ruins para ela, mas ela também fez coisas ruins para outras pessoas. Normalmente, a primeira pessoa com quem você se identifica é com o personagem “bom”, então ter uma protagonista que é boa e má ao mesmo tempo pode ser algo desafiador.

GFComo foi o processo de concepção do filme?

GM – Eu estive fascinado pela história desde o começo. Trabalhamos muito e o filme ficou muito diferente do que imaginamos à princípio. Inspirados em dramaturgia americana, mudamos a personagem principal. Depois, descobrimos a possibilidade de permitir ao público fazer essa jornada onde o espectador perde a capacidade de julgar outras pessoas. Hoje, eu diria que esse é tema principal para mim, mas quando começamos, eu não sabia disso de maneira alguma.

GFComo foi trabalhar com a Liv Ullmann?

GM – Ela é uma ótima pessoa, ótima atriz e também uma ótima diretora. O que foi um pouco desafiador, pois ela já dirigiu cinco filmes, está editando o último esse ano, enquanto eu dirigi três. Então ela é muito mais experiente do que eu sou, em todos os aspectos. Isso também foi de grande ajuda, por exemplo, eu me questionava “como podem acreditar que essa família juntos vive há 20 anos”. Você pode acreditar nisso na tela, mas os atores não se conheciam, então como isso poderia funcionar? Ela me ajudou muito criando a atmosfera do set, ajudou a integrar os três atores, criando uma família entre eles. Fazia piadas, conversava, saia para jantar com eles. Ela ficava no set o dia inteiro, mesmo que não tivesse mais que filmar, e esperava até terminarmos.

GF Você vê o personagem do advogado como um “cão” policial, que fareja indícios. Que temas você gostaria que fossem “farejados” pelo cinema?

GM – Eu provavelmente não farei esse filme, mas seria interessante ver um sobre o poder dos computadores modernos e a maneira com a qual eles podem controlar outras pessoas. Eu me preocupo com isso, porque estamos desenvolvendo ferramentas que facilitariam que ditadores controlem a todos. Em países livres, nós deveríamos tentar desenvolver maneiras de tornar isso impossível, mas ninguém está trabalhando nisso. Então esse é um tema que seria interessante discutir.