Amor Bandido

Por Gabriel Fabri
O começo de Amor Bandido (Mud) anuncia um filme de aventura. Dois garotos, Ellis e Neckbone, fogem de suas rotinas, mas com hora para voltar, ao atravessar um rio com destino a uma ilha deserta, próxima de suas casas. Lá, invadem um barco no alto de uma árvore, supostamente abandonado. Pegos em flagrante pelo morador, o simpático Mud, os dois logo se envolvem em uma missão para que o homem se reencontre com o amor de sua vida, antes que a polícia o alcance. Com ritmo bastante ágil e breves momentos de tensão, o longa discute o amor em suas variadas formas e ganha força em suas nuances.
Dirigido por Jeff Nichols, diretor do premiado em Cannes O Abrigo, o filme faz diversos paralelos entre seus personagens. O mais evidente são os relacionamentos de três casais, diretamente ligados a Ellis (Tye Sheridan): seus pais, o próprio garoto com sua primeira “namorada” e o romance entre Mud (Matthew McConaughey) e Juniper (Reese Witherspoon), no qual o roteiro é centrado. Existe diferença no amor entre dois pais de família, dois adolescentes e dois personagens “errantes”?
Sempre pela ótica de Ellis, Amor Bandido provoca questões em torno desse tema, enquanto acompanha a aventura dos garotos para ajudar Mud em sua busca. Tal jornada é envolvida por certa ingenuidade do protagonista, que é constantemente quebrada pelos outros personagens. Por que ele ajuda Mud, sabendo que ele é um criminoso, sabendo que a polícia está à sua procura? Por que ele se preocupa com o romance de um desconhecido quando o casamento de seus pais está em crise?
O roteiro de Nichols constrói personagens densos, na medida em que sutilmente desconfiamos de todos. Juniper, Mud e o velho do outro lado do rio são dúbios, ao mesmo tempo misteriosos e tão confortantes. E o próprio Ellis também aparenta não estar sendo sincero, pelo menos consigo mesmo. Seu relacionamento com a garota é fantasioso, uma fixação superficial, enquanto os verdadeiros laços que cria é com Mud. Será que os amores dos outros personagens também são superficiais? Se há dúvidas de que eles são o que aparentam ser, o filme questiona se o amor também não é o que aparenta.
E mais, até que ponto o amor justifica atos?
Em Amor Bandido, esse sentimento se manifesta de maneira diversas. Na vingança, na solidão, na esperança, na ingenuidade, na superficialidade, na amizade, na família, no casamento, numa relação conturbada ou numa que só existe na cabeça de um dos envolvidos. De um lado do rio, o amor é uma lembrança, personificada em um velho solitário; de outro, é a confusão e a esperança da juventude. E numa ilha não muito longe dali, resgatar um velho amor é uma forma de recomeçar (ou apenas manter-se no mesmo lugar, enquanto tudo muda?).  Essas diversas camadas presentes nos personagens e nas situações tornam a obra rica em nuances, combinação perfeita para um drama bastante envolvente.

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