Laura

Por Gabriel Fabri

Um bom jornalista sabe que, na singularidade de cada ser humano, é possível encontrar uma história incrível. Todos têm algo de curioso, engraçado ou interessante para contar – por isso que, mais do que saber apurar e questionar, muitos vão apontar para a capacidade de ouvir o outro como um dos requisitos mais fundamentais da profissão. Essa atitude é indispensável ao se falar de uma boa reportagem, mas também de uma boa discussão, por exemplo, em qualquer formato que ela seja, e isso inclui o cinema. O documentário Laura, de Felipe Gamarano Barbosa, encontra em uma pessoa comum uma personagem intrigante, e acerta ao deixá-la falar.

Na trama, acompanhamos a vida de uma brasileira-portenha, aspirante a atriz, que vive em Nova York em um apartamento pequeno em um hotel, onde é vizinha de uma peculiar prostituta. Laura frequenta festas da alta sociedade, como a première do filme Duplicidade (com Clive Owen e Julia Roberts), e está sendo acompanhada por dois homens que estão fazendo o documentário. A força da personalidade de Laura, em contraponto à fragilidade do seu estilo de vida, são o tema desse documentário.
Tudo em Laura é peculiar, que beira o exótico: seu estilo debochado, sua autoconfiança exagerada, seu sotaque que mistura o espanhol de Buenos Aires com o português brasileiro e o inglês, sua obsessão pela fama. A personalidade da personagem carrega nas costas o filme, dotado de situações e diálogos cômicos. Nada melhor para descrevê-la do que com uma das situações mais hilárias do documentário: Laura tem Clive Owen e Julia Roberts no filme sobre ela, mas precisa roubar o cartaz da noite de lançamento do filme para se satisfazer.
A protagonista, todavia, começa a ficar incomodada com as filmagens e começa a questionar as escolhas do diretor. Por que mostrá-la em um lugar que ela não frequenta, por exemplo? Por que simular que ela está entrando em quarto onde não é possível entrar? A personagem se recusa a ser uma personagem do filme, apenas. Ela quer ativamente fazê-lo, o que a montagem final faz questão de mostrar.
Diversas imagens de Laura são construídas: ela é a mulher que se mantém forte e autêntica apesar das dificuldades? Ela é o retrato dos brasileiros que vão tentar a vida profissional nos EUA e fracassam? Ela é uma estrela ou uma pobre coitada? Uma personagem multifacetada, enfim. 
O longa mostra quem é Laura hoje, mas não se atreve a entrar demais na subjetividade da personagem. Ao fim do filme, pouco se sabe sobre a trajetória pessoal e profissional da senhora, além do que a própria – e alguns poucos entrevistados – contaram. O filme passa longe do formato de uma “biografia”, preferindo focar na rotina da personagem, que entretém o espectador facilmente durante a maior parte do filme. Assim, assemelha-se muito com Estamira, de Marcos Prado. Nele, também há uma personalidade forte e cativante, louca da sua maneira, expondo as suas rotinas e suas convicções. Há um pouco de Estamira em Laura? Olhando bem, as duas são apresentadas apenas pelo primeiro nome, como se não representassem apenas a si mesmos, mas uma parcela maior da sociedade. 

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