Um Castelo na Itália



Por Gabriel Fabri

Indicado para a competição oficial do Festival de Cannes 2013, Um Castelo na Itália é um filme afinado com o seu tempo. Com a crise que assola toda a Europa, na qual a Itália é um dos países mais atingidos, o longa de Valeria Bruni Tedeschi retrata uma família burguesa também em crise, não apenas financeira.
Na trama, um castelo no interior da Itália, que uma vez pertenceu a um grande industrial, precisa ser vendido para salvar a situação econômica dos herdeiros, acostumados com uma vida luxuosa que não será mais sustentável. A família encontra a resistência de um dos filhos, Ludovic (Filippo Timi), que não suporta a ideia de que as “memórias” de seu pai se transformem em ponto turístico. Em meio ao drama familiar, Louise, interpretada pela própria diretora do filme, sente o peso da idade e da solidão. Quando conhece o jovem ator Nathan (Louis Garrel, de Um Verão Escaldante), vê uma oportunidade de realizar o seu desejo: ter um filho. O problema é, claro, que o garoto não quer. Completa o quadro um ex-amigo da família, o alcoólatra Serge (Xavier Beauvois), que não pretende deixá-los em paz. 
O longa demora para adquirir contornos de comédia, preferindo trabalhar a situação, no primeiro momento, como um drama. À medida que os conflitos dos personagens se intensificam, o filme começa a inserir, aos poucos, o humor, até flertar, em alguns momentos, com cenas que parecem retiradas de uma comédia pastelão – a do espelhinho, por exemplo, forçada demais para provocar algo além de um sorriso constrangedor. Essa mudança tem tudo a ver com a narrativa: tempos desesperados exigem medidas desesperadas, e quando o público e os personagens parecem concluir isso é que a veia humorística aflora, paralelamente ao aumento da carga dramática.
A mistura de drama com comédia funciona em Um Castelo na Itália, um filme onde os personagens têm muitos motivos para não sorrir (e os acordes tocados no piano acompanham essa ideia, soando um tanto densos). Enfrentam os mais diversos tipos de problemas, amarrados numa teia de pequenos conflitos cotidianos que o longa monta muito bem. Mesmo diante das dificuldades, os personagens tentam não perder as esperanças, mas, os conflitos, o filme prefere deixá-los sem solução. 
Em meio aos problemas de saúde, relacionamento, dinheiro, família, leilões, fé, bebida e a compra desesperada de um ventilador, o relacionamento de Louise e Nathan não convence muito. À princípio, parece proposital: um relacionamento superficial em sua essência. Mas a cena final, ou os segundos finais para ser mais específico, nos coloca para pensar se o intuito era amenizar o desfecho duro de um jeito tosco ou uma constatação de como o desespero amoroso gera relações vazias. Fico com o segundo, apenas para não diminuir a boa impressão com que saí do filme: a de que um retrato de uma burguesia em crise para tempos de crise veio a calhar, e funcionou muito bem.