Eu e Você

Por Gabriel Fabri

Em uma das primeiras sequências de Eu e Você (Io e Te), novo filme do italiano Bernardo Bertolucci (Os Sonhadores e O Último Tango em Paris), um psicólogo pergunta para Lorenzo, um garoto de 14 anos, como ele se sentiu após não ajudar um colega em apuros. “Normal”, responde o paciente. Essa cena explicita o que seja, talvez, a característica mais marcante do personagem, e o tema central da obra: a indiferença.
Interpretado por Jacopo Olmi Antinori, Lorenzo é um menino que tem dificuldade, ou falta de vontade, de socializar. Vive isolado em seu próprio mundo, ou, como diz sua mãe (Sonia Bergamasco), ele “é tão narcisista para pensar que precisa de outras pessoas”. Quando sua turma vai em uma excursão para esquiar, Lorenzo finge viajar com os colegas, mas se tranca em um porão por sete dias, sozinho com um formigueiro e um cachorro de porcelana. Lá, acaba recebendo a visita de sua meia-irmã Olivia (Tea Falco), que coloca um ponto final nos planos de isolamento do rapaz.
O longa constrói em torno da figura de Lorenzo um personagem peculiar, que não chega a ser interessante, mas tem alguns bom momentos. Logo no início, o garoto pergunta para a sua própria mãe se, em um caso extremo (“para salvar a humanidade”), ela faria sexo com ele. Esta aí uma cena que revela várias de suas nuances, e uma das poucas sequências em que ele cativa. É o suficiente para o desenvolvimento do filme, pois logo o foco muda para sua irmã.
Quando entra em cena Falco, a atriz rouba as atenções para a sua personagem, assumindo o protagonismo do filme. Sua repentina aparição e os mistérios em torno da garota dão um gás para a obra, que se sustenta então a partir das mudanças que a presença de Olivia provoca na semana que Lorenzo idealizou – ela é viciada em heroína, mas está iniciando um período de abstinência. Dois personagens, problemáticos de maneiras completamente diferentes, juntos.
Bertolucci desenvolve um filme mediano, que cativa muito pelo carisma da personagem Olivia. A obra aborda também temas pertinentes como a fragilidade dos laços familiares e o consumo de drogas e, com um olhar mais ou menos atento, fica a pergunta, ao final da sessão: a indiferença é a causa de todos – ou grande parte – dos nossos males? Ao olhar para a desilusão e os problemas desses dois jovens, Bertollucci mostra que sim.

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