Carrie – A Estranha

Por Gabriel Fabri

Em 1998, o diretor Gus Van Sant recebeu a missão de refilmar Psicose, de 1960, um dos filmes mais icônicos da carreira de Alfred Hitchcock e, até hoje, um dos mais importantes suspenses da história do cinema. Diante da obra prima original, Van Sant resolveu simplesmente repetir o primeiro longa, literalmente. E o remake de Psicose se tornou um caso interessante para discutir as tão frequentes refilmagens que são feitas. Para que refazer um filme que deu (muito) certo? Impossível não lembrar desse caso, ou dessa pergunta, ao assistir a Carrie – A Estranha, refilmagem do clássico de 1976, dirigido por Brian de Palma.
A história é uma adaptação homônima do romance de Stephen King, em que Carrie White (Chloë Grace Moretz), uma estudante do colegial completamente sem amigos, é humilhada por suas colegas após menstruar pela primeira vez, tomando banho no vestiário, e achar que estava morrendo. Em sua casa, a menina enfrenta as punições de sua mãe Margareth, uma fanática religiosa vivida por Julianne Moore, que acredita que a menstruação é um sinal de pecado. Após o episódio, suas colegas são punidas – enquanto todas aceitam o castigo para irem ao baile de formatura, Chris (Portia Doubleday) planeja vingança, e Sue (Gabriella Wilde) tenta reparar os danos pedindo para o seu namorado, vivido por Ansel Elgort, convidar Carrie para a festa.
Dirigida por Kimberly Peirce (Meninos Não Choram), essa refilmagem nem sequer tenta readaptar o livro de King, debruçando-se sobre o filme de Brian de Palma. É raro encontrar alguma mudança no plano da narrativa nessa nova versão, que copia diálogos e situações inteiras da obra de 1976, sem adicionar qualquer coisa que justifique o remake. Um ou outro detalhe muda, na maioria das vezes para pior, nessa versão moderna. 
Entra a questão da tecnologia – estamos na era do ciber bullying, afinal – mas o filme é tão preguiçoso que não faz quase nada de novo com isso, além de uns efeitos ora duvidosos. Pior, introduz o aparelho celular na trama, mas rapidamente (na sequência seguinte) esquece dele, já que possivelmente todo o clímax poderia ser evitado com apenas um telefonema, entre dois personagens a pouco trocando mensagens. Nessa nova versão, algumas cenas, principalmente as do baile, tornaram-se mais intensas, graças a bela fotografia, mas a novidade passa batido por quem já está acostumado com o gênero. Ou seja, um clássico reduzido a um filme qualquer. 
Um dos poucos acertos do longa foi a personagem de Gabriella Wilde, cujas motivações são mais desenvolvidas e parecem mais naturais. Carrie continua convencendo, numa ótima atuação de Moretz. Já Julianne Moore fica caricata demais e seu trabalho deixa muito a desejar quando comparada a de Piper Laurie, assustadora na versão de 1976, enquanto a de Moore beira o cômico.
O novo Carrie – A Estranha é uma refilmagem tão inútil quanto preguiçosa, em suma. Sua mais “ousada” tentativa de transgredir o primeiro é na cena inicial, que mostra o momento do nascimento de Carrie, apenas mencionado em um diálogo do filme de Brian de Palma (diálogo mantido nessa versão, tornando a abertura um pleonasmo, ou vice e versa). Mas o remake pode ser uma ótima ferramenta de discussão sobre como o cinema americano ficou careta nesses quase quarenta anos que separam um do outro: na abertura do primeiro, as jovens aparecem nuas no vestiário. Aqui, todas estão cobertas, até Carrie, que lembra de pegar uma toalha antes de sair gritando que estava morrendo. Quando Margareth critica o decote de um vestido, a câmera não o mostra, fixa no rosto da filha. Uma mãe parindo e ameaçando matar o bebê com uma tesoura, ok. Meninas saindo do banho, é muito pesado.
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