Vidas ao Vento

Por Gabriel Fabri

Jiro Horikoshi é um homem que foi atrás de seu sonho. Desde criança, ele tinha um fascínio por aviões, e, impossibilitado de ser piloto, por causa da miopia, ele traça como objetivo se tornar um designer. Vidas ao Vento, novo filme de Hayao Miyazaki, constrói, nessa figura histórica do criador da aeronave que bombardeou Pearl Harbor na II Guerra, um retrato atual do homem: na busca da satisfação e do sucesso profissional, Jiro se aliena do mundo.
A história se desenvolve linearmente, contando a infância de Horikoshi e mostrando o início de sua paixão. Em seguida, vemos o personagem na juventude, em uma situação bastante delicada: durante uma viagem de trem, um terremoto abala o Japão. Jiro socorre uma mulher, que estava acompanhada de sua filha, Nanoko. Anos mais tarde, o destino da menina e o de Horikoshi se cruzam novamente.
O filme de Miyazaki tem alguns problemas evidentes: para começar, o ritmo. A narrativa se desenvolve muito lentamente, principalmente quando Horikoshi atinge a idade adulta. Na tentativa de deixar claro que o personagem principal é uma pessoa dedicada, o longa se perde e se torna insosso demais, e acaba relatando direitinho como a rotina de um engenheiro de aviões pode ser monótona. Depois, o romance com Nanoko não chega perto de convencer o espectador: se desenvolve tão rápido como uma brisa. Fica difícil de acreditar nas emoções de todo o drama do clímax, por isso. Não se decide se é amor ou uma mera convenção social, e, assim, envolve tanto quanto os testes de aviões ao longo do filme – nada, ou quase isso.
Vidas ao Vento é um filme bem menor do que o encantador A Viagem de Chiriro, o mais conhecido filme de Miyazaki por aqui, mas não é um desastre, pois tem muito o que dizer para o espectador. E fala justamente na jornada desse antiherói, que, em busca de seu sonho, perde-se. É uma odisséia egocêntrica que transforma o jovem, que salvou desconhecidos em um terremoto, no homem que se limita a, apenas, fabricar aviões de guerra – o melhor da categoria, claro. O ditado “o sucesso subiu à cabeça” cabe perfeitamente aqui: o que vemos é o retrato de um homem fechado às pessoas ao seu redor. E o melhor é que Miyazaki consegue criticá-lo sem demonizá-lo, tornando Jiro um personagem humano, com muitos defeitos e qualidades, provocando as mais contraditórias reações na plateia.
O final do filme, cruel, mas com uma sensibilidade e sutileza que lembram muito trabalhos anteriores do diretor, encerra a obra com firmeza, de modo a provocar uma reflexão maior sobre o protagonista e sua jornada. Temos uma crítica mordaz a duas figuras comuns também nos dias de hoje: a do workaholic e a do cidadão alienado. As duas se combinam no personagem de Horikoshi, que se revela o oposto da meninha Chiriro, do longa de 2001: ele vive desconexo do mundo real, que é mostrado nas telas. Chiriro viajou em um mundo que não é o nosso, mas nunca deixou de se preocupar com os outros. E Vidas ao Vento constrói sua crítica principal nesse personagem, que segue atrás do que quer inconsequentemente, para onde quer que a brisa do sucesso assopre. Miyazaki se sai melhor na fantasia, sem dúvidas, mas não perdeu aqui a oportunidade de fazer de sua última obra um filme bastante relevante.
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