RoboCop

 
Por Gabriel Fabri

Tempos em que comentaristas de TV incitam a violência e conclamam que os defensores dos direitos humanos “adotem um bandido”, ou em que termos como “homens de bem” e “humanos direitos” viram parte do vocabulário do cotidiano, evocam maneiras violentas e preocupantes de lidar com a criminalidade. A sensação de assistir a RoboCop, remake do clássico dos anos 1987, é de que a distopia futurista dirigida por José Padilha (diretor dos dois Tropa de Elite) não é ambientada em 2028. E, sim, em um mundo muito mais próximo do que essa data, onde “bandido bom é bandido morto”. A atenção do espectador é deslocada para pensar o presente.

O filme acompanha a história de fabricação de um produto, aliada a um plano de marketing, para provocar uma mudança na opinião publica norte-americana, obrigando o Senado a revogar uma lei que proíbe o uso de robôs para combater a criminalidade. Os EUA, apesar de serem o país onde os drones foram criados, é o único que ainda não o adotou como “cura” contra o crime. O tira Alex Murphy (Joel Kinnaman), ferido gravemente em uma explosão, será a isca: a OmniCorp o transforma em um homem biônico, o RoboCop.
Já na primeira cena, o discurso apresentado pela corporação e pela mídia ao longo do filme é desacreditado. Em uma intervenção no Oriente Médio, a maneira desumana como os robôs funcionam é explicitada, quando um garoto, querendo proteger o pai com uma faca, parece ser assassinado. Ao vivo, transmitido para os Estados Unidos em um programa cuja estrutura e conteúdo guardam total semelhança com o presente – se a ciência avançou em 14 anos, não se pode dizer o mesmo da comunicação social -, evocando discursos da atualidade, como no momento, em meados da projeção, em que o apresentador, interpretado por Samuel L. Jackson, questiona se o Senado americano estaria “a favor dos bandidos”.

O longa de Padilha mantém o tom de filme de super-herói presente na grande maioria dessas produções norte-americanas e alguns clichês do gênero na narrativa. Temos dois vilões claros, um da esfera pessoal de Murphy, e outro que representa uma ameaça para sociedade (a corporação que criou o RoboCop e alguns de seus funcionários do alto escalão). O protagonista irá lutar contra (ou se vingar de?) ambos, e é ai que figura a ação do filme, bastante envolvente e empolgante, como Hollywood sabe muito bem fazer, embora a resolução da tentativa de assassinato de Murphy se torne bastante previsível, ocorrendo ao uso de mais um clichê.
Para além da ação, sobra muita reflexão. A questão do uso da tecnologia para a destruição, sob o pretexto de “segurança”, se alia às discussões a respeito da guerra ao terror e das vantagens e desvantagens da tecnologia. É vantajoso para os cidadãos terem sua segurança entregada a máquinas com o poder de matar, ou vale apenas para quem vai lucrar com isso? Qual o significado dos braceletes de proteção, que impedem o robô de ver a pessoa como um inimigo – são só os “bandidos” pobres que pagarão pelos seus crimes? Os outros comprarão a própria salvação? Que influência um programa de TV que finge dar a voz para o outro lado da questão, mas vocifera suas ideias com unhas e dentes – chamando os outros de “tendenciosos” -, exerce? E como essa mudança na opinião pública influencia os políticos? Essa influência é positiva?
O longa ironiza a corporação por trás dos robôs, o discurso que defende o uso dessa tecnologia e a ideia de delegar a máquinas desumanas a segurança dos humanos. Por trás de uma estética e estrutura bem hollywoodiana de filmes de ação, há uma contestação do presente. Não dá para exercer justiça por meio de softwares, ou ditar verdades absolutas por meio de um senso comum, por isso que existe tanta divergência – direito (penal, inclusive) é uma ciência humana, não exata, afinal. E o desejo por máquinas que não julgam, apenas aplicam a punição inconsequentemente, parece algo tão alinhado com o presente, com a defesa de linchamentos baseados numa suposta necessidade de “justiceiros”, que faz com que RoboCop, mesmo com os clichês de sempre, se torne um bom e divertido longa, incômodo, mas necessário.

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