Fotografia e Cinema: Imagem e Narrativa



Por Vinícius Crevilari

Texto publicado originalmente no site Cinéfilos, um projeto da Jornalismo Júnior, empresa júnior de jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. 
Quando pensamos em fotografia, logo vem à mente um pedaço de papel com uma imagem estática. É a captura de um momento especial e a relação deste com o meio que o cerca. Através da imagem, elaboramos uma pequena narrativa, um pequeno discurso; e movimentos anteriores e posteriores, a partir dela, surgem em nosso imaginário. O cinema, desde sua criação, nos dá de presente esta narrativa e estes movimentos. A fotografia, unindo-se a cinematografia, nos dá a sensação de uma foto que se mexe e o filme acaba se assemelhando a um álbum de retratos.
Assim como um livro de fotos conta uma história, o cinema se apropria das técnicas fotográficas e narra a vida (ou momentos) de seus personagens. O que qualifica a fotografia de um filme como boa ou ruim, é a maneira em como a foto é inserida no contexto da história e de seu discurso.
É a qualidade da imagem, atrelada à qualidade do enredo, que torna uma obra do cinema relevante.  Nós do Cinéfilos, portanto, indicamos algumas das inúmeras produções em que a fotografia teve papel fundamental na construção de uma história e como tais produções tornaram-se referências para o desenvolvimento do cinema.
Beleza Americana (American Beauty, 1999)
Dirigido por Sam Mendes, Beleza Americana disseca o imaginário e o lifestyle da família média americana. É narrado por Lester Burnham (Kevin Spacey), um pai de família que passa por uma crise de identidade. O enredo trata da decomposição familiar, conforme as crises pessoais de cada membro vão se intensificando, pelo ponto de vista de Lester.
Conrad Hall, diretor de fotografia, utilizou-se de imagens lentas em takes centrados, para dar ao espectador a chance de acompanhar e analisar cada ação – como na cena em que Jane (Thora Birch) e seu namorado estão de costas, vendo calmamente um video de uma sacola dançando no ar. Como a psíque de cada personagem e as relações entre eles são abordadas com especificidade pelo diretor, Hall dá muita atenção à quadros mais intimistas (como a cena em que a personagem de Mena Suvari, Angela Hayes, aparece numa piscina de pétalas, vista de um plano superior).
À princípio, Conrad Hall não era a primeira opção de Mendes para a direção de fotografia. Porém, a recusa de Fred Elmes (que negou o trabalho por não ter lhe agradado o enredo), possibilitou à Hall fazer um exercício fotográfico soberbo, lhe rendendo um Oscar pelo seu trabalho.
Persona – Quando Duas Mulheres Pecam (Persona, 1966)
Com um título em português que nada tem a ver com o propósito do filme, Persona é uma das obras mais perturbadoras de Ingmar Bergman. Trata da relação psíquica entre Elisabeth Vogler (Liv Ullmann), uma atriz que sofre um surto e decide parar de falar e Alma (Bibi Anderson), uma enfermeira responsável por cuidar da artista em crise e que acaba também sofrendo um ataque psicótico, após dias de convivência com Vogler.
Persona é a síntese das principais características do cinema praticado pelo diretor sueco, entre elas, o uso da metáfora. Ao tratar da fusão das personas das duas protagonistas, Bergman utiliza-se de alegorias que representam este amálgama. E a fotografia é a principal ferramenta metafórica utilizada pelo cineasta em Persona, através da colaboração de Sven Nykvist, parceiro de longa data de Bergman.
Por meio do jogo de contraste entre preto e branco, o fotógrafo lança mão da simplicidade para por em foco a metamorfose psicológica pela qual passam a atriz e a enfermeira. A cena mais emblemática é a da fusão das faces das duas mulheres num mesmo rosto. Quando Elizabeth toma para si a personalidade de Alma, formando um mesmo indivíduo.
A Grande Beleza (La Grande Bellezza, 2013)
Impossível assistir A Grande Beleza (Paolo Sorrentino) e não fazer comparações com A Doce Vida (La Dolce Vita, 1960), de Fellini. Ambientados em um mesmo local (a bela cidade de Roma), ambas as obras traçam a vida de dois homens (um escritor, outro jornalista), seus tédios – gerados por um profundo ócio criativo – e o cansaço do comportamento social inútil das elites das quais fazem parte. Também são semelhantes as formas estéticas utilizadas por ambos os diretores para representar o ponto de vista dos protagonistas, seus descontentamentos em relação a uma classe fadada ao materialismo e os pequenos detalhes, que mostram de forma primorosa que o clichê “a beleza está nas pequenas coisas” não é tão banal como imaginamos.
Em A Grande Beleza, particularmente, o fotógrafo Luca Bigazzi explora toda a imponência da cidade de Roma. Através da utilização fluida da câmera, Bigazzi liga imagens de estonteantes belezas (como os monumentos históricos romanos) a outras peculiares (modestas ações humanas que se misturam a grandiosa arquitetura da cidade italiana). Tudo isso conversando com o cinismo excêntrico de Paolo Sorrentino, legítimo herdeiro da escola felliniana.
Blade Runner – O Caçador de Andróides (Blade Runner, 1982)
O ano é 2019 e a Terra é habitada apenas pelos excluídos. Os outros planetas são ocupados pelos mais ricos e suas cidades construídas através da força de trabalho dos Replicantes, andróides em forma de humanos, produzidos pelos próprios humanos. Tais andróides, extremamente ágeis e fortes, são tão inteligentes quanto os engenheiros que os conceberam e a descoberta de que eles poderiam desenvolver, por si próprios, sentimentos humanos, torna-os uma ameaça ao poder do Estado – que limita o tempo de vida dos Replicantes a apenas 4 anos. Cansados do trabalho forçado, sedentos por liberdade e em busca de longevidade, os andróides desafiam a proibição de irem à Terra e partem de seus planetas em busca de seus criadores (e de vingança).
Surge aí, os Blade Runners, espécie de força de inteligência da polícia norte-americana, responsável por executar os rebeldes.
O simples enredo esconde uma profundade político-filosófica que impressiona. E Blade Runner é uma ficção científica que se baseia não só na simplicidade da narrativa e do discurso, mas também na técnica elementar da fotografia, para discutir o papel do Estado e colocar em pauta o futuro da humanidade.
Ridley Scott, diretor, se apoia na genialidade de Jordan Cronenweth e seu cinema noir “futurista”, para imprimir realismo através do intenso jogo de luz e sombra, altos contrastes de cores e takes a partir de ângulos inusitados. O uso de tal técnica tem como principal objetivo imprimir, além de um realismo palpável para o público da época, a sensação de que os cidadão da Terra são vigiados o tempo todo – daí as constantes cenas em que feixes de luzes aparecem em cenários internos (casas, prédios ou bares).
Um dos grandes legados de Blade Runner não é só o tema que carrega consigo, mas como diretor e fotógrafo conseguiram utilizar técnicas simples de fotografia para fazer com que o espectador seja imerso e se identifique com um ambiente próprio e peculiar, a priori tão pouco palpável para nossa realidade.

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