O Teorema Zero

Por Gabriel Fabri
A cena inicial de “O Teorema Zero“, novo filme dirigido por Terry Gilliam (“Brazil” e “12 Macacos”), revela o local onde se concentra a maior parte da ação da narrativa, a casa do protagonista, Qohen Leth (Christoph Waltz, ganhador do Oscar por “Bastardos Inglórios” e “Django Livre”). O personagem vive em uma Igreja abandonada, um lugar escuro, não fosse pela luz das velas e a que entra pelos vitrais. Estabelece-se o contraponto com o mundo colorido fora da casa (colorido em especial pela overdose de propaganda, que literalmente persegue os pedestres), e está apresentado, logo nesse início da projeção, sobre o que essa distopia futurista tem a dizer: o risco da perda da fé.
Qohen é um homem simples e solitário, apenas uma engrenagem entre muitas na Mancom, uma corporação onipresente não só em sua sociedade, mas em sua vida como um todo. O personagem e o papel dessa empresa guardam profundas semelhanças com a situação recentemente apresentada em “Uma Aventura Lego”. Entretanto, ao contrário do herói alienado da animação, Qohen tem a consciência de que sua vida é miserável e desprovida de sentido. Tudo gira em torno de seu trabalho esquisito e mecânico, que mais parece uma atualização do trabalho operário de “Tempos Modernos”: saem as fábricas, entram os computadores.
O personagem deseja trabalhar em casa, na esperança de receber uma misteriosa ligação. Assim, lhe é designado a missão de provar o tal Teorema Zero do título, onde “zero tem que ser igual a 100%”, como o computador repete a cada vez que Qohen falha em provar o que já sabemos ser uma missão praticamente impossível. Uma missão sem sentido, logo fica claro. Por que e para quem?
O filme de Gilliam não falha ao construir essa atmosfera futurística pessimista, com o cínico uso de cores vibrantes para um mundo sem vida. As obsessões, os medos, os anseios e as dificuldades de Qohen em se relacionar com as pessoas ao seu redor são muito bem trabalhadas pelo roteiro e ganham corpo na atuação competente de Christoph Waltz. Esse personagem, que não tem amigos, que prefere não ser tocado, que fala em primeira pessoa do plural, que deseja descobrir o sentido da vida (do universo e tudo mais – ele não sabe que é 42?), garante a sustentação filosófica do filme, levantando questões sobre as nossas próprias obsessões, medos e alienações. 
Todo esse pessimismo no filme é reforçado pelos diálogos, que não raramente fazem provocações explícitas para tirar o público da inércia. Por exemplo, quando Qohen aponta para o computador onde ele trabalha no Teorema Zero, que mais parece um videogame, e diz “a vida aconteceu comigo”. Para refletir. 
Tudo isso é apresentado sem que o “O Teorema Zero” seja um filme sobrecarregado demais com o baixo astral. Pelo contrário, a obra possui momentos de humor e várias citações de cultura pop, como os filmes “Matrix” e “Star Wars”, por exemplo. Quando a propaganda fala no “Occupy Mall Street”, com descontos de até 100%, é impossível não esboçar um sorriso. Os personagens coadjuvantes, Baisley (Mélanie Thierry) e Bob (Lucas Hedges), além de levantarem mais questões sobre as relações interpessoais, ajudam o ritmo do filme com as doses de descontração. Matt Damon integra o elenco como o dono da corporação para a qual Qohen trabalha.
“O Teorema Zero” discute, com sucesso, a perda do sentido da vida no nosso cotidiano, nas relações pessoais e de trabalho, e a influência da tecnologia em tudo isso. A perda da fé não é a ausência de uma religião para seguir, e sim a falta de algo no qual acreditar. Maior ironia do que uma câmera no lugar da cabeça de Jesus, em um crucifixo pendurado na residência do protagonista, não há. Em uma vida onde se precisa da tecnologia para vencer os medos, onde o computador é o único contato com a natureza e com o corpo humano, onde as experiências mais humanas são virtuais, não parece haver por quê sentir alegria. E a distopia é justamente não saber como preencher esse vazio, como viver em um mundo tão oco, sendo tão oco.