Acima das Nuvens



Esse filme faz parte da programação da 38ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Por Gabriel Fabri

Dirigido por Olivier Assayas (“Depois de Maio”), “Acima das Nuvens” transporta o espectador para a região de Sils Maria, na Suíça, carinhosamente apelidada de “o canto mais famoso da terra” por Nietzsche. Na viagem de trem para receber um prêmio, a atriz Maria Enders (Juliette Binoche) recebe a notícia de que o seu amigo de longa data, um dramaturgo renomado, faleceu durante uma caminhada nos Alpes. No jantar de entrega do prêmio, recebe uma proposta: reencenar uma peça do falecido que trata sobre um romance entre uma mulher adulta e uma adolescente. Vinte anos depois de ter se consagrado interpretando a personagem mais nova, ela agora deve assumir a personagem mais velha, com a qual não se identifica. 

A obra trabalha a questão do tempo e as tentativas de uma atriz que já teve os seus dias de glória e que agora reluta com sua perda de prestígio por ser considerada “velha”. Enquanto o próprio dramaturgo falecido havia trazido às suas últimas peças um tom mais sombrio e melancólico, ela começa a sentir na pele, aos poucos, o peso de sua idade, e essa mesma melancolia.
A dualidade entre juventude e amadurecimento está presente na peça que Maria deve reencenar, e esse texto fictício acaba se misturando com a realidade da personagem. É na segunda parte, quando o inverno cessa e o branco dos alpes é substituído pela vegetação, que a personagem de certa forma renasce, curiosamente no mesmo período em que essa dualidade está mais presente. É quando a atriz ensaia os calorosos diálogos da peça com a jovem Valentine (Kristen Stewart), sua assistente pessoal, e o público percebe o quanto o texto teatral diz sobre essas duas personagens. Os ensaios se confundem com a realidade, e os personagens da peça se confundem com os do filme. Mesmo que Maria alegue não ser homossexual, a pulsão entre as duas se acentua, diante da atração entre o velho e o novo, o adulto e o jovem. Na primeira parte do filme, Maria é uma atriz amargurada; na segunda, é a hora em que ela se dá conta disso, com o reencontro com o texto que marcou o seu passado e com a aproximação que tem com Valentine. O filme acompanha essa mudança de tom, com a mudança da paisagem e a inserção de trilha sonora.
Com uma excelente performance de Juliette Binoche,  “Acima das Nuvens” funciona bem até o seu epílogo, quando o filme resolve focar na relação de Maria com Jo-Ann (Chloë Grace Moretz), a atriz que assumiu o papel que há vinte anos era o dela. Apesar de amarrar algumas pontas e deixar uma mensagem mais clara no final, o longa-metragem perde um pouco de sua força, cujo ápice, no final da segunda parte, traz a tal “Serpente de Maloja”, um fenômeno com as nuvens da região, e um desfecho mais aberto.

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