118 Dias



Por Gabriel Fabri

Em 2009, após a reeleição de Mahmoud Ahmadinejad para a presidência do Irã, muitos jornalistas foram presos, em meio às manifestações que acusavam o governo de ter fraudado a disputa eleitoral. Entre eles, estavam o correspondente da Newsweek Maziar Bahari, que ficou refém da polícia iraniana por quase quatro meses. O filme “118 Dias” (Rosewater), dirigido por Jon Stewart, retrata o período em que o jornalista ficou preso, acusado de ser um espião.

De origem iraniana, Bahari tem na família um histórico de revolucionários: seu pai e sua irmã eram comunistas e chegaram a ser presos por regimes diferentes – o primeiro, antes mesmo da revolução de 1979. Logo, o jornalista é uma figura interessante como protagonista do filme, uma vez que sua própria história contextualiza vários episódios emblemáticos da história do Irã. Entretanto, esse é só um detalhe na trajetória do profissional que retorna ao país para entrevistar um dos líderes entre os apoiadores do governo fundamentalista de Ahmadinejad. O jornalista é interpretado por Gael García Bernal, de “No” e “Babel”. 
O diretor Jon Stewart, apresentador do programa norte-americano de comédia The Daily Show, estreia aqui na direção de um longa-metragem. Sua experiência com programas de auditório, que satiriza os políticos norte-americanos, faz toda a diferença em “118 Dias”: o filme é estranhamente engraçado. Não chega a ser uma comédia, entretanto a obra consegue, sem exagerar na dose, sair do lugar comum dos filmes que retratam interrogatórios e prisões políticas, usando o humor. No caso, o interrogador, que Bahari apelida de “Rosewater” (“água de rosas”, em inglês), é o alvo da sátira de Stewart: a acusação absurda com a qual o jornalista foi detido, ajuda o personagem a ser sutilmente ridicularizado. É uma crítica bastante direta ao governo do Irã, e funciona.
Antes de retratar a prisão, o filme faz uma boa contextualização da situação política do Irã naquele momento, além de fazer uma boa apresentação do personagem. Isso em um ritmo bastante envolvente, em uma edição que inclui cenas reais da eleição e dos protestos. Essa parte é interessante também, pois humaniza o povo iraniano, sem estigmatizá-los todos como fundamentalistas. Afinal, sai da boca do próprio protagonista: “os EUA e o Irã tem muito mais em comum do que de diferente”. Mais um ponto positivo para “118 Dias”.