O Homem Irracional

Por Gabriel Fabri

Dizem por aí que Woody Allen, nessa fase de fazer um filme por ano, faz um bom filme a cada dois anos. É claro que isso não passa de uma constatação curiosa, tão válida quanto a tal maldição do elenco de Friends, mas após o fraco Magia Ao Luar, é muito bom ver que chegou mesmo a vez de o cineasta entregar um divertido e intrigante longa-metragem. O Homem Irracional não vai figurar entre os grandes filmes de Woody Allen, como o recente Blue Jasmine, mas é uma deliciosa experiência cinematográfica.

O professor de filosofia Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um reconhecido e controverso profissional. Sua chegada a uma nova universidade desperta a curiosidade de todos – é verdade que ele ficou mal porquê seu melhor amigo morreu no Iraque? Ou por que sua ex-mulher o traiu com esse melhor amigo? Verdade que ele tem um caso com uma estudante? Pessimista, Abe passa por uma crise existencial. Sua reputação controversa ou os boatos não parecem incomodá-lo e nem a proximidade com uma de suas alunas, Jill (Emma Stone), parece animá-lo. Até que um dia ele escuta uma conversa em uma lanchonete e resolve cometer o crime perfeito – assassinar um completo estranho.
Abe é o típico personagem de Allen, uma espécie de seu alter-ego, como visto em tantos filmes. Intelectual, questionador, meio de mal humor com a vida. Desde o início da trama, porém, o personagem cativa, com os diálogos afiados do roteiro e a boa atuação de Phoenix, cujo personagem muda completamente de postura após ter a sua “brilhante” (para ele, pelo menos) ideia. Emma Stone, porém, cativa ainda mais, com uma personagem graciosa e cheia de personalidade. A história da aluna que quer dormir com o professor é velha, mas aqui ela ganha contornos inesperados. Jill é uma personagem complexa, autêntica e bastante cativante.
Nesse longa-metragem, é interessante observar como, ao falar de filosofia, Allen retorna, mesmo que indiretamente, ao tema central do filme anterior, a magia. O personagem de Phoenix, afinal, descreve a filosofia como um besteirol, que não tem nada a ver com a realidade. Há também a questão das pessoas dramatizarem tudo, desde as fofocas sobre o passado de Abe até uma teoria maluca – que, o público sabe, não é tão maluca assim. Isso apenas para aguentar uma vida sem graça, que precisa de distrações (drama, fofocas, filosofia, religião ou um crime).  E Abe só descobre um sentido para a sua quando resolve, voilá, brincar de assassino, trocando o ‘falar’ pelo ‘fazer’, de uma maneira pouco racional. Há algo mais irracional que a mágica? A filosofia aqui, ao racionalizar a vida, acaba entrando no campo da abstração. É a filosofia como uma espécie de religião, tema que não aparece diretamente no filme, mas que está intimamente ligado a questão da mágica. Allen fala, portanto, sobre magia, sem tirar coelhos da cartola.
A dinâmica da dupla Abe e Jill funciona demais e o resultado é um filme que, após o final surpreendente, pode deixar o público com vontade de continuar sentado e rever toda a história de novo na próxima sessão. Afinal, se matar é um ato que exige criatividade, é preciso de muita para fazer um filme como O Homem Irracional, uma comédia sobre filosofia, romance e um assassinato, funcionar bem. Alguns podem ter a sensação de que é “mais do mesmo”, de que não é um filme inovador na carreira de Woody Allen. Mas, poxa, há um inegável frescor aqui, desses raros de se encontrar ultimamente. E, para atingir isso, o diretor nem precisou explorar a beleza de uma nova cidade.