O Bom Dinossauro

586990.jpg-r_640_600-b_1_D6D6D6-f_jpg-q_x-xxyxx

Após demonstrar um novo vigor criativo com a animação Divertida Mente, que trazia como personagens os sentimentos na cabeça de uma garotinha, os estúdios da Disney-Pixar apresentam agora O Bom Dinossauro (estreia de Peter Sohn em um longa-metragem), uma aventura mais convencional do que o filme anterior, mas que impressiona pelo visual realista das paisagens.

Na trama, uma família de dinossauros vive de sua colheita e se prepara estocando comida para o inverno. Desajeitado desde o nascimento, Arlo não consegue cumprir suas tarefas direito, sentindo-se inferiorizado perto dos irmãos. Determinado a “deixar no mundo a sua marca” (literalmente), o jovem dinossauro aceita o desafio proposto pelo seu pai: deve capturar e matar a criatura que está roubando os alimentos estocados. A criatura, entretanto, é um garotinho, o que deixa Arlo bastante assustado – dá para imaginar como seria estranho para um dinossauro ver um humano pela primeira vez. Duas reviravoltas unem Arlo e o garoto em uma aventura pela selva desconhecida.
O longa-metragem se destaca ao inverter os papéis com os quais o público se identifica: o humano aqui é animalizado – em alguns momentos, parece um selvagem, em outros, um cachorrinho fofo. São os dinossauros com os quais se constrói realmente a identificação e é Arlo o protagonista dessa história, não o garoto.
É interessante notar como são nítidas as semelhanças que O Bom Dinossauro tem com Como Treinar o Seu Dragão – assim como na animação da Dreamworks, em que o protagonista precisa matar o dragão mas não consegue (e daí surge uma amizade improvável), aqui acontece a mesma coisa, com a inversão de que o humano é a presa dessa vez. Além disso, os temas são parecidos: as duas falam sobre amizade, a necessidade de se provar para a família, a coragem necessária para sair da zona de conforto e fazer algo grandioso e, por fim, a questão de que as aparências enganam (em Como Treinar, o dragão Banguela era considerado o mais perigoso de todos, sendo chamado de Fúria da Noite, quando na verdade era o mais fofo).
O Bom Dinossauro tem piada com cogumelos alucinógenos, boas cenas de aventura, uma dupla de personagens simpáticos, uma grande carga emocional – não é a animação mais emocionante dos últimos tempos, mas vale citar que na sessão para a imprensa um garotinho saiu completamente desolado do filme – e também tem essa interessante inversão entre humanos e animais. Não é um filme muito original, pelo contrário, mas tem os seus pontos positivos, o que a torna uma animação acima da média.
Vale ressaltar, porém: O Bom Dinossauro, apesar de seus momentos fofos ou engraçados, não é uma animação alto astral. Estão no filme a questão de deixar a sua marca no mundo, o peso que isso trás para as pessoas (o jovem, principalmente), a dificuldade de vencer (ou melhor, conviver com) os próprios medos e de lidar com os momentos difíceis que a vida pode trazer. Há também a perda de alguém querido e a distância deles, o que são temas que todos temos que lidar, e algumas pessoas lidam com isso desde muito pequenos. O filme suaviza essas temáticas, mas não a ponto de deixá-las completamente escondidas entre as piadinhas e as cenas de ação.
O final é melancólico, inclusive porque deixa na dúvida se “deixar a marca no mundo” era realmente algo importante. É mais provável, portanto, que o desfecho traga sorrisos tristes do que lágrimas de felicidade. Sendo essa ou não a intenção dos realizadores, pouco importa, pois é esse o grande ponto positivo do longa-metragem: por trás de um momento feliz, a tristeza foi responsável por essa construção também. E assim, o filme faz um breve diálogo com Divertida Mente, que mostrava a importância da tristeza em nossas vidas. De forma mais simples e menos eficaz, porém.
| Gabriel Fabri   
 
 
*O Blogueiro assistiu ao filme a convite do site Mundo Blá