Sia – This Is Acting

Assim como o seu trabalho anterior, 1000 Forms of Fear, que fez sucesso com as canções “Chandelier” e “Elastic Heart (originalmente oferecidas para Katy Perry), This Is Acting reúne 13 canções que foram oferecidas para outros artistas e descartadas por eles – a única exceção é a balada “One Million Bullets”. Por isso, em cada canção, Sia assume uma persona diferente, como sugere o título do CD.
O conceito de This is Acting revela um pouco de como funciona a indústria: acampamentos de compositores (no caso específico da cantora Beyoncé) e músicas sob encomendas. Em entrevista a Rolling Stones, Sia revelou que chegou no estúdio para compor com Rihanna e Kanye West e encontrou bilhetes sobre como eles queriam a música. “Mas é hilário porque eu vou lá, mas eles quase nunca aparecem”, declarou. Pelo menos duas canções destinadas à Rihanna estão no álbum de Sia, e são excelentes: a melhor é “Reaper”, que Sia admite ter incluído na tracklist apenas porque o seu empresário gosta dela, e a outra é a divertida “Cheap Thrills”. As duas são a cara da cantora de Barbados, que recentemente esteve novamente com Sia para ouvir 25 de suas canções e, quem sabe, gravar alguma para o seu oitavo álbum, ANTi. Nenhuma das composições de Sia foi selecionada para o CD lançado um dia antes de This is Acting.
É difícil escolher uma canção para destacar quando o CD inteiro, apesar das diferentes sonoridades, soa igual: canções poderosas, com rimas fáceis e que grudam na cabeça – não é a toa que Sia é a compositora mais requisitada da atualidade, ao lado de alguns produtores que também compõem, como Max Martin e Ryan Tedder. Cada canção aqui faz o ouvinte querer escutá-la repetidamente.
As primeiras duas (e excelentes) canções do álbum foram rejeitadas por Adele: “Bird Set Free” é co-escrita e produzida por Greg Kurstin, do hit “Hello”, e “Alive”, o carro-chefe do álbum, foi escrita em parceria com a cantora britânica. Em seguida, a balada “One Million Bullets” emociona, fechando a parte mais séria do CD – essa última lembra as faixas que Sia compôs para Christina Aguilera, nos álbuns Bionic e Lotus, mais calma do que as composições que ganham as paradas. O CD ainda tem mais duas baladas: “Broken Glass” e “Space Between”.
A partir da quarta faixa, This Is Acting vira uma festa: com pegada latina, “Move Your Body” sem dúvida é a que foi escrita (e rejeitada) por Shakira. Já “Unstoppable”, a música mais poderosa do CD, lembra “Invincible”, que Sia escreveu para Kelly Clarkson, e consegue reunir no refrão todas as palavras para empoderamento imagináveis e a metáfora mais legal, “sou um Porshe sem freios”, para quem quer se sentir confiante. Seguem as duas composições rejeitadas por Rihanna e outras duas boas faixas: “House On Fire” e “Footprints”. Pulga atrás da orelha: para quem seriam essas canções?
A maior surpresa do CD é talvez “Sweet Design”, que parece escrita para alguma girl band. A música é ruim, um tanto caótica e destoa de todo o conjunto, mas evidencia mais uma qualidade de Sia: além de compor e cantar canções destinadas a algumas das melhores vozes da atualidade, ela também canta como se fosse várias ao mesmo tempo: isso é que é atuação! E a letra, bom, é engraçadinha: fala sobre o doce design do seu bumbum.
Nos EUA, o álbum foi lançado ainda com duas faixas bônus: a dançante “First Fighting a Sandstorm”, divertida e poderosa canção, e “Summer Rain”, que tem uma pegada mais rock. Difícil imaginar como uma música da qualidade de “First Fighting…” ou de “Unstoppable” foram rejeitadas pelos cantores mais graúdos – só o fato de Sia ainda ter 25 canções para mostrar para Rihanna, depois de fechada a tracklist de This Is Acting, explica. Uma pena que “First Fighting” não está presente na versão do álbum que chegará às lojas no Brasil.

Após ouvir This Is Acting, algumas pessoas podem achar que tantas composições da Sia de uma vez cansam – e cansam mesmo, em uma primeira audição. Ora, todo álbum é uma pluralidade de compositores e produtores, e a Sia é aquela compositora que todo mundo hoje em dia escolhe uma canção para incluir em seu CD, na esperança de que vire um hit. A australiana tem o seu estilo, que todo mundo adora. Mas é fato: os cantores escolhem uma canção ou duas, e elas se destacam no conjunto. Um álbum todo… bom, pode parecer exagerado no começo. Mas assim que o ouvinte decorar as letras, com certeza, ficará uma delícia de se ouvir. E, para isso, nem será necessário ouvir milhões de vezes – como é muito tentador de se fazer.

 

| Gabriel Fabri

Fique de olho na nossa página do Facebook para mais novidades!