Fogo No Mar

Vencedor do Urso de Ouro em Berlim, o documentário Fogo no Mar (Fuocoammare) foi o escolhido para abertura da 21ª Edição da Mostra É Tudo Verdade, que tem início no dia 7 de abril. Dirigido por Gianfranco Rosi, o longa-metragem discute a questão dos refugiados na Europa desafiando o espectador a questionar as suas próprias posturas, por meio de longos planos e simbolismos.

O longa-metragem é ambientado em Lampedusa, uma pequena ilha na Sicília (Itália) que recebe milhares de imigrantes da África e do Oriente Médio. Entretanto, Rosi foca a trama em Samuele, um garoto branco, filho de um pescador. Vemos a sua curiosidade em relação ao mar, que para ele é mais que um mistério ou uma aventura, é um símbolo de esperança e de futuro. É de lá que vem o proveito da família e as melhores histórias de seu pai. Esse misto de idealização e curiosidade contrasta com os milhares de refugiados que lutam para atravessar o o oceano em busca de novas oportunidades no solo europeu – para eles, o mar é uma espécie de prova de fogo. Uma tortura à qual é melhor se arriscar do que viver em seus países ou continentes de origem. Em um longo plano de câmera estática, o menino escuta de sua avó as histórias da guerra, em que o pai, pescador, tinha medo de sair com o barco à noite. O elo entre os europeus e os imigrantes estão estabelecidos nessa cena – o perigo da guerra para o primeiro no passado não deixa de ser o mesmo hoje, só que para os refugiados. Para esse grupo, o mar ainda é vermelho de sangue.

Nesse documentário, vemos muito mais os europeus do que os imigrantes, que nem sempre são filmados sofrendo – a cena mais marcante é quando um deles, animado, canta em inglês toda a sua trajetória degradante até chegar ali. Mas por que um documentário sobre imigrantes que prefere filmar cenas banais do cotidiano europeu?  Em uma das últimas cenas do filme, vemos a câmera estática enquanto uma senhora italiana faz a sua cama. É um plano estático, demorado e banal, como muitos nesse longa-metragem. Aqui está a preocupação principal do filme: mostrar como o europeu está alheio ao drama sofrido pelos imigrantes. Tudo se passa na mesma e pequena ilha, mas é como se fossem dois mundos completamente diferentes. A proximidade é apenas física, pois a distância entre essas duas realidades é, na verdade, abismal. O tapão no olho do menino simboliza essa cegueira europeia com relação aos refugiados e a única aproximação também não poderia ser mais simbólica: o depoimento do médico legista, que examina os corpos daqueles que não sobreviveram à travessia.

Desse modo, Fogo no Mar pode ser visto mais como uma provocação poética aos europeus do que um documentário sobre refugiados. O foco é na indiferença dos ocidentais, que estão interessados apenas em seus próprios problemas. Uma contestação que se pode atribuir a toda a sociedade contemporânea, não só a europeia. Quantos problemas estão bem na nossa frente e nós desviamos os olhos?

| Gabriel Fabri