A Três Vamos Lá

Dirigida por Jérôme Bonnell, cujo filme de estreia Apenas Um Suspiro (com Gabriel Byrne e Emmanuelle Devos) foi lançado recentemente por aqui, a comédia francesa A Três Vamos Lá tem um premissa curiosa: Lille (Anaïs Demoustier) é amiga de Charlotte (Sophie Verbeeck) e tem um caso com ela, que se arrasta há cinco meses. O problema é que Micha (Félix Moati), o namorado de Charlotte, também está afim de Lille – e a recíproca é verdadeira. Dividida entre o homem e a mulher, a personagem de Demoustier não tem outra escolha a fazer além de ingressar em uma vida de duplicidade, como a amante do casal, sem que um desconfie do caso dela com o outro.

Com leveza e bom humor, o roteiro e a direção trabalham bem os conflitos e as emoções dos três personagens – que são, acima de tudo, contraditórias. Embora em alguns momentos participar desse triângulo amoroso pareça ser divertido – a cena na qual Lille escapa pelo telhado é hilária -, o filme constrói bem o drama desses personagens, errantes, confusos com relação aos seus sentimentos e, no caso da personagem principal, com relação à sua sexualidade também.

Essas contradições são um ponto alto do filme, mas o que chama mesmo a atenção é a disposição da obra de, embora se utilizar de uma linguagem convencional, tente ser imprevisível com relação à narrativa. Se a premissa por si só já é diferente, o filme não cai na armadilha de prometer algo muito novo e no fim ser previsível. O desfecho, entretanto, surpreende mais por tirar o protagonismo da história das mãos de Lille do que no quesito criatividade – é uma reviravolta que faz sentido, mas parece forçada. Deixa o espectador, contudo, com uma pulga atrás da orelha. Nada nesse filme é preto ou branco, tudo é leve, mas tudo é pesado ou intenso.

Demoustier brilha no papel principal e seu personagem tem uma complexidade grande. Lillie não só é o centro do triângulo amoroso, mas ela também tem um trabalho que desperta nela as emoções mais conflitantes: é defensora pública e precisa advogar por agressores, seja uma mulher que destruiu o carro do marido, em um momento agudo de crise, ou um tarado que passou a mão na saia de uma desconhecida na rua. A mistura de sexo e violência é uma constante no cotidiano da personagem – não é a toa que ela resolva cair em não uma, mas duas aventuras “proibidas”.

| Gabriel Fabri