Martyrs

No início de Martyrs, refilmagem norte-americana do francês Mártires (de Pascal Laugier), vemos uma menina atormentada por um episódio em que, aparentemente, ela fora sequestrada e torturada, mas conseguiu escapar. Os policiais não encontram nada e a garota, chamada Anna, vai para um colégio de freiras, onde é perseguida por um espírito que ela chama de “monstro”. Apenas uma colega, Lucie, parece tentar compreendê-la, embora também tenha suas dúvidas de que a assombração seja real, e não coisa da cabeça da amiga.

Se o começo do longa-metragem de Kevin e Michael Goetz evoca um filme de espíritos, o público logo percebe que fantasmas não serão a fonte de maior medo dessa obra. Dez anos depois do começo da amizade entre Lucie e Anna, agora interpretadas por Troian Bellisario e Bailey Noble respectivamente, a relação será posta à prova, uma vez que Anna extrapola cruelmente qualquer limite em busca de vingança – e Lucie terá que lidar com os atos da amiga, ajudando-a a limpar a sujeira.

Por boa parte da produção, os diretores trabalham habilmente o suspense, calcado na relação entre as duas, nesse clima de confiança e desconfiança, amizade e ameaça, que paira sob Lucie e Anna. Afinal, por mais que o espírito seja real, ou que aquelas pessoas sejam as responsáveis pelo trauma da infância de Anna, Lucie (e o público) não tem dúvidas do estado de desequilíbrio metal da personagem, sendo ela capaz de tudo. Essa relação é bem trabalhada, em especial pensando na personagem de Anne, por quem o público simpatiza ao mesmo tempo que a teme.

Entretanto, Martyrs prepara uma mudança brusca de rumo, que traz traços de ficção científica ao terror, e ainda traz toques do chamado torture porn. Tudo o que sustentava o filme até aquele ponto se dissipa e, embora a reviravolta dê um novo gás ao longa-metragem, o filme se reduz a um jogo de gato e rato. Sombrio, sim, e com um pano de fundo religioso interessante. Saber que o perigo é “de fora” enfraquece o suspense psicológico do filme e dá um certo alívio ao espectador, que agora pode torcer e temer pelas mocinhas sem a tensão de antes. Ainda mais quando os vilões ficam tão demarcados como vilões, sem um traço da complexidade da protagonista que, até boa parte do filme, era uma algoz e uma vítima. Feita essa ressalva, o longa-metragem consegue se manter assustador, mesmo que tenha se reduzido a um filme na linha de Bata Antes de Entrar, de Eli Roth, para citar um exemplo recente, ou de qualquer suspense genérico com vilões sádicos.

Quanto ao filme original, esse remake consegue ser superior em vários sentidos: primeiro, porque trabalha melhor a relação das duas personagens, mostrando o desenvolvimento dessa amizade quando crianças. Segundo, porque as atrizes convencem mais o espectador, permitindo essa tensão entre amizade e a ameaça entre as duas personagens – tensão que é um mero detalhe no original. Depois, o filme original explica coisas que o novo deixa em aberto, como, por exemplo, quem é o espírito ou alucinação que Anna vê? Por fim, há também uma mudança brusca de rumo no meio do filme de 2008, mas que é completamente diferente, embora os resultados sejam semelhantes: a opção do remake em aliviar um pouco a tortura e trazer mais ação, tornando o longa mais “hollywoodiano”, é sábia. O novo Martyrs é mais palatável, o que não o torna menos interessante. Nesse caso, é o contrário.

| Gabriel Fabri