Angry Birds: O Filme

Em 2015, os estúdios Disney-Pixar trouxeram na criativa animação Divertida Mente o debate sobre a importância da tristeza na vida de todo mundo: por mais que tentamos reprimi-la, ela é parte essencial de cada um e, como o filme mostra, precisa-se dela para se ter alegria. E se tem uma emoção mais combatida e desprezada que a tristeza é a raiva. É sobre esse sentimento que discute Angry Birds: O Filme, adaptação para o cinema do jogo lançado em 2009 pela empresa finlandesa Rovio Entertainment. O comando é dos animadores Clay Kaytis e Fergal Reilly, que fazem sua estreia na direção de um longa-metragem – o primeiro trabalhou como animador em Frozen e o segundo fez os storyboards de Hotel Transilvânia, entre outros projetos.

No filme, o pássaro Red (dublado no Brasil por Marcelo Adnet) causa uma confusão ao ser contratado como palhaço para um aniversário e chegar depois da festa ter acabado. Em um julgamento em praça pública, é condenado à pena máxima: participar de sessões de terapia emocional com Matilde (Dani Calabresa) para controlar a sua raiva. Lá, ele conhece os pássaros Bomba e Chuck (Fábio Porchat) – o primeiro literalmente explode quando fica nervoso e o outro é um pássaro impulsivo e ansioso. Os problemas aumentam quando um navio de porcos atraca na ilha e, como verdadeiros colonizadores, trazem diversão e tecnologia para os pássaros – apenas Red desconfia das verdadeiras intenções dos porcos verdes, que, na verdade, não são nada amigáveis.

Angry Birds supera as expectativas e acaba entregando um filme muito divertido. Com referências que vão de Cinquenta Tons de Cinza a O Iluminado, e muitos diálogos e situações cômicas, o longa-metragem entretém do início ao fim. Apesar de se esforçar para não ser carismático, é muito difícil não simpatizar com Red, personagem que carrega toda a trama nas costas – seu mau humor cativa como se ele fosse a versão animada do Dr. House, personagem ranzinza da TV americana interpretado por Hugh Laurie. E o filme também ajuda ao caracterizar a solidão do personagem com a canção Behind Blue Eyes, de Limp Bizkit, o que gera um engraçado efeito cômico, por exemplo.

A ideia por trás do filme é que, por mais que a raiva deva ser controlada, ela não pode ser eliminada das nossas vidas – às vezes, é bom ter raiva, e o clímax, que resulta em uma grande batalha, é todo calcado nesse impulso de reagir, com a raiva sendo um instrumento para um ato de coragem, bondade e heroísmo, mas que tem a destruição como um efeito colateral (algo como uma guerra mesmo, mas suavizada para o público infantil). Claro que, ao longo dessa divertida aventura, a maior parte do público não vai pensar nessas contradições, até porque não há baixas nesse conflito.

Uma figura curiosa desse longa-metragem é a Águia, uma lenda entre os pássaros, pois seria o único que pode voar. É o grande ídolo de Red, embora muitos acreditem que ele não passa de um mito. O curioso é como essa ideia do mito do herói é utilizada, colocando o debate da idealização das pessoas. Ora, a Águia só era perfeita porque ninguém a conhecia. E o momento em que esse personagem justifica uma postura covarde sua, já no final da projeção, é impagável: “É para parar de ter fé em mim e buscar o herói em si mesmo”. No filme, você vai rir da espontaneidade dessa frase. Aqui, fica a reflexão sobre os verdadeiros heróis: um animal ordinário, mal humorado, vítima de bullying, antissocial, impaciente e agressivo também merece ser ouvido e reconhecido. Os “desajustados” agradecem.

| Gabriel Fabri