Jogos Vorazes: A Esperança – O Final

Chega ao fim a maior franquia adolescente dos últimos anos, Jogos Vorazes, também a série com alguns dos filmes de ação mais inteligentes já feitos por Hollywood. A cada longa-metragem, a saga de Katniss Everdeen (Jennifer Lawrence) superou as expectativas e entregou um filme melhor que o outro. Com forte conteúdo político e muita ação, a série baseada nos romances de Suzanne Collins tem o seu derradeiro desfecho em Jogos Vorazes: A Esperança – O Final, segunda parte do último capítulo da trilogia. Apesar de não ser o melhor da franquia, mostrando alguns sinais de esgotamento, o filme entrega um final digno e fora do comum para a série. A direção é novamente de Francis Lawrence, que assumiu a franquia em Em Chamas.

Essa segunda parte retoma o final do terceiro longa-metragem, em que Katniss foi agredida por Peeta (Josh Hutcherson), entregue ao décimo terceiro distrito com a sua memória confusa, e apenas a certeza de que sua ex-aliada era uma ameaça. Enquanto a guerra à Capital segue em curso, com mais distritos aderindo às forças rebeldes, a presidente Coin (Julianne Moore) pede que Katniss descanse. Ela, entretanto, tem outros planos: para por um fim no sofrimento de todos, Katniss vai matar o presidente Snow (Donald Sutherland). É a última chance do público de ver em cenas inéditas o ator Philip Seymour Hoffman, que faleceu antes de terminar as filmagens.

Depois de três filmes, é de esperar que a série não tenha muito mais o que dizer. Após a excelente primeira parte, a expectativa para A Esperança – O Final era de muita ação. Estamos falando, é claro, de uma guerra que chega ao seu clímax e, a esse ponto, as reflexões que o filme poderia provocar sobre a sociedade midiática ou sobre autoritarismo, muitas vezes ditos em nome da “paz” ou da “segurança”, parecem já ter sido aproveitadas com esperteza nos longas anteriores. Entretanto, o romance de Collins pedia um tratamento diferente – e como os filmes, todos eles, optaram pela fidelidade ao livro, o mesmo ocorre neste derradeiro capítulo. Ora, Katniss não é uma guerreira nesta guerra e, neste filme, ela não assume a posição de líder: ela anda às margens do confronto, com a sua equipe, atrás de um objetivo secreto, o assassinato do líder da Capital.

Assim, os discursos estimulados de “vamos nos libertar da opressão” dão lugar a dúvidas e mais dúvidas, entre alguns obstáculos que o grupo enfrenta para chegar ao coração da Capital – sim, um novo Jogos Vorazes, mas dessa vez sem a necessidade de matar os colegas, embora haja a dúvida sobre confiar ou não em Peeta, um ponto forte na narrativa desse filme. E o brilhante final criado por Collins levanta mais questões a respeito do poder, do autoritarismo e da falsidade dos discursos que prometem o novo fazendo o velho.

Quem pensou que veria um filme só com ação errou, pois, assim como no episódio anterior, a ação aqui é secundária. Na cena de ação mais importante do filme, a heroína não salva o mundo com o seu arco e flecha, e sim, corre sem rumo, e assiste a tudo com uma sensação de impotência. Katniss, personagem que revelou para as massas Jennifer Lawrence, uma das maiores atrizes da atualidade, é complexa, é humana. E o filme não falha nessa construção: por trás da imagem forte do Tordo, há uma pessoa como outra qualquer – ok, é uma mulher muito forte e corajosa, mas também tem os seus medos e as suas paixões. E por falar em paixões, até quem ela “escolhe”, entre Peeta e Gale, é um ato político nesse filme, um detalhe que pode até passar desapercebido, mas que não deve.

O novo Jogos Vorazes, entretanto, pode deixar uma sensação de que algo ficou faltando. Justamente por não ter ação demais (o que tem é uma repetição mais chata dos filmes anteriores), ou um grande ato heroico, esperado por quem não leu o livro. Isso é somado a detalhes como a frieza na morte de uma personagem, que explode sem qualquer emoção, câmera lenta ou música melodramática – o que não é algo ruim, pelo contrário. Afinal, os filmes da franquia nunca foram como outros filmes de ação quaisquer. E nesta guerra, travada não mais na arena de um violento Big Brother mas na vida real, o glamour das batalhas não existe mais. Por que, enquanto acompanha a saga para matar Snow, o público se pergunta se aquele caminho é o certo a se trilhar. Vibrar com Katniss Everdeen fica mais difícil porque fica mais claro que ela, apesar de toda a sua coragem e autonomia, é em todo momento uma peça no jogo de alguém, mesmo que tente fugir disso. E o público, assim como a personagem, começa a ver que nem tudo é preto ou branco, vilões ou mocinhos, como se acreditava.

| Gabriel Fabri

*texto publicado originalmente em novembro de 2015

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