Ninfomaníaca – Volume I

Em uma cena de Ninfomaníaca – Volume I, Joe (Charlotte Gainsbourg), ao narrar suas aventuras sexuais, compara sua vagina a uma porta automática, dessas de shopping center – abrem para quem estiver por perto. Nesse momento são exibidas imagens de portas, não do órgão sexual citado, embora o masculino ganhe, logo em seguida, uma própria (e cômica) sequência de planos estáticos, com uma grandiloquente música clássica. Nessa primeira parte da obra de Lars Von Trier, o drama da personagem principal é marcado por comparações e interferências de imagens inusitadas: insetos, animais, números, Bach e Edgar Allan Poe. O simbolismo presente nas últimas obras de Trier ganha também um verniz cômico, uma característica curiosa nessa primeira parte.

Na trama, Joe é encontrada inconsciente na rua, por um homem mais velho chamado Seligman (Stellan Skarsgard). Ele se mostra interessado na história daquela mulher, que será narrada pela personagem de Gainsbourg em oito capítulos: nessa primeira parte, são apresentados “O Pescador Exemplar”, “Jerome”, “Senhora H”, “Delirium” e “A Pequena Escola de Órgão”. Na juventude, Joe é interpretada por Stacy Martin.

Assim como Melancolia se debruçava sob um sintoma da protagonista, acentuado pela aproximação do fim do mundo, Ninfomaníaca segue a mesma linha, explorando os contornos do vício em sexo. Lars constrói a personagem desde a sua infância, preocupado em mostrar indícios de seus desejos, e seu filme marca explicitamente a personagem como uma pessoa infeliz, ligando o sexo não ao universo do prazer, mas ao da depressão, ou melhor, a um mundo onde nada faz sentido e tudo é vazio, como em seu filme anterior. A banalidade já está expressa na primeira grande empreitada de Joe no mundo da ninfomania, quando ela transa com diversos passageiros de um trem apenas para ganhar um saco de chocolates em uma aposta.

A respeito das cenas de sexo, nenhuma (nessa versão censurada, claro) chega perto da ousadia de Azul é a Cor Mais Quente, por exemplo, embora as relações sexuais sejam também explícitas. Esse não é o foco do Volume I, que instiga mais o espectador em outros momentos, como nas digressões absurdas do personagem Seligman. Ele comenta, questiona e contesta as confissões de Joe, e às vezes seus comentários geram um efeito cômico. Bach e a sequência de Fibonacci não parecem estar aí gratuitamente, mas cabe ao espectador tentar pensar em algum sentido para as comparações e teorias expostas, que parecem um tanto deslocadas, colocadas para tornar a experiência do espectador no mínimo diferente do esperado.

Ao mesmo tempo em que trata de um tema sério e instigante, Lars Von Trier recorre ao humor – não à tragédia, por enquanto – para tecer suas críticas. Além das comparações inusitadas, Trier questiona a masculinidade e a inteligência masculina: sem contar a já mencionada sequência de pênis, em que esse suposto objeto de potência é submetido ao escárnio, todos os homens são facilmente manipulados por Joe, de maneira a provocar risos na plateia. Até com um carro, sempre associado ao universo de poder masculino, ela se dá melhor. E a ingenuidade – ou seria “burrice”? – do sexo “forte” é estopim para o melhor momento da primeira parte, quando Uma Thurman aparece e rouba a cena, interpretando uma personagem histérica.

Seria até desonesto chegar a uma conclusão à respeito de  Ninfomaníaca se tratando de um primeiro pedaço de uma versão reduzida da obra original de Lars Von Trier. Todavia, Volume I é o suficiente para proporcionar uma rica e instigante experiência cinematográfica – o bastante, para, ao final do filme, manter no público a curiosidade inicial para voltar e assistir ao Volume II, ainda mais com um preview chamativo, durante os créditos.

| Gabriel Fabri

Esse texto foi publicado originalmente em 6 de janeiro de 2014, pouco antes da estreia de Ninfomaníaca – Volume I, no Brasil. O Volume II, cuja crítica pode ser lida aqui, chegou aos cinemas brasileiros 2 meses depois.  

 

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