Tirando o Atraso

Garotas de biquíni, jovens musculosos sem camisa, muitas drogas, álcool, sol e música eletrônica: parece um paraíso hedonístico, mas trata-se da “semana de saco cheio” nos EUA, o tradicional spring break. Esse período de festas já foi retratado recentemente no brilhante Spring Break – Garotas Perigosas, de Harmony Korine, e agora é cenário para uma bem-humorada aventura entre avô e neto em Tirando o Atraso, de Dan Mazer.

Dick Kelly (Robert De Niro) acaba de ficar viúvo, após uma eternidade casado. No dia do funeral de sua esposa, ele obriga o seu neto Jason (Zac Efron) a levá-lo de carro até a sua casa de veraneio – isso, uma semana antes do casamento do garoto. Entretanto, Dick tem outros planos, que definitivamente não incluem um retiro solitário: após 15 anos sem fazer sexo, ele precisa da ajuda do neto para conseguir transar. Para a sorte de ambos, eles encontram no caminho uma velha amiga de Jason, Shadia (Zoey Deutch), cuja melhor amiga, Lenore (Aubrey Plaza), quer riscar “transar com um professor” de sua lista de desejos – e foi como um professor aposentado que Dick se apresenta para elas. O destino da viagem dos dois é então alterado para uma cidade praiana, onde um spring break acontece.

Apesar de começar forçando piadas sem graça, o segundo longa-metragem de Dan Mazer (ele dirigiu a comédia Dou-lhes Um Ano e foi roteirista de Borat) logo mostra a que veio. É só a viagem entre avô e neto começar que a dupla, em sintonia, conquista o público com muito humor – 90%, é claro, são piadas de cunho sexual. Embora um dos momentos mais hilários seja ver Zac Efron dançando pelado (vestindo apenas uma abelha de pelúcia cobrindo os genitais), De Niro rouba a cena, com uma atuação espontânea e muitas piadas na ponta da língua. Uma surpresa interessante é a personagem Lenore: ela personifica a mulher dos sonhos de toda pessoa interessada apenas em sexo sem compromisso. Por ser tão exagerada e irreal, acaba se tornando muito engraçada, um elemento cômico do filme que funciona muito bem. Parece saída de um pornô, afinal.

Mas o filme vai muito além do esperado e surpreende: mesmo sendo politicamente incorreto e não ter vergonha disso, Tirando o Atraso traz uma boa mensagem sobre aproveitar a vida – e não exatamente da maneira como o espectador imagina. No fundo, é também um filme sobre família. E que fique claro: ser politicamente incorreto não é ruim quando se tem um material de qualidade e criativo em mãos. E aqui, há boas piadas com todos: sobre falar ou não nigger, gíria usada entre negros e que é considerada ofensiva se falada por brancos (e que Jason aconselha Dick categoricamente a não falar em hipótese alguma, vale ressaltar), ou mesmo brincadeiras com homossexualidade – para depois, em um momento surpreendente, Dick sair em defesa de um personagem gay, o que, geralmente, não se esperaria de uma comédia onde o personagem principal tem como objetivo transar com uma garota uns 40 anos mais nova.

Tirando o Atraso é escrachado, politicamente incorreto e criativo. Quem embarcar na ideia, com certeza vai se divertir.

| Gabriel Fabri

Publicado originalmente em fevereiro/2012, na ocasião da estreia do filme.