Caça-Fantasmas

Em uma cena de Caça-Fantasmas, reboot do clássico de 1984, Abby (Melissa McCarthy) tem a intenção de mostrar para uma de suas colegas um comentário sobre assombrações em um vídeo do Youtube que viralizou. Ela acaba lendo sem querer o comentário errado, pegando aleatoriamente uma reação preconceituosa ao vídeo, e o público ri imediatamente de uma situação estressante do dia a dia: ler os comentários (anônimos ou não) da internet. É provável que, quando o trailer do filme dirigido por Paul Feig (A Espiã Que Sabia de Menos) se tornou o mais odiado da internet, batendo o recorde de descurtidas no Youtube, o filme já estivesse concluído. Mas é um prazer pensar que a respostas aos preconceituosos está ali nas telas, de maneira leve e espirituosa, como todo o longa-metragem.

A provável causa das reações negativas é que agora todas as quatro caça-fantasmas são mulheres. Essa é a grande sacada do filme, já que a versão original tinha quatro homens e era repleta de piadas masculinas. Agora, as mulheres ganham protagonismo. E funciona: mantendo o mesmo espírito bem humorado e despretensioso dos outros filmes, o grupo tem química entre si e todas elas, com personalidades bem diferentes, cativam, cada uma a sua maneira. A liderança é de Abby, papel no qual Melissa McCarthy mostra que continua afiada no humor, já visto em sua outra parceria com Feig.

A história não é muito diferente dos outros filmes da série. Se a produção foi ousada em escalar mulheres para o papel, enfrentando de frente o machismo, ela foi bem comedida no roteiro, que funciona sim quase como um remake do primeiro – com até uma divertida referência ao homem marshmallow e as participações especiais de todo o elenco original (com exceção de Harold Ramis, que faleceu em 2014). Um ponto baixo é o vilão caricatural, um homem tímido e esquisito que funciona como um mal sem nuances, uma versão humana dos deuses dos outros filmes, mas também sem complexidade. Entretanto, as novas personagens trazem um frescor que revigora a franquia. O humor, que vem dos diálogos e da interpretação das atrizes, é o ponto alto. Em especial, a situação todo envolvendo o novo secretário, o musculoso Kevin (Chris Hemsworth), que fará as meninas, em especial Erin (Kristen Wigg), babarem. Completam o elenco Leslie Jones e Kate McKinnon.

Caça-Fantasmas diverte e ganha pontos por recuperar a atmosfera do original, mas fazendo mudanças significativas, que aproximam a comédia de títulos recentes como Como Ser Solteira e até Vizinhos 2. A reação negativa ao trailer mostra que trocar o sexo dos protagonistas foi algo ousado, incomodando muita gente – como trocar um dos heróis do Quarteto Fantástico (de Josh Trank) por um jovem negro, por exemplo, outro filme cujo trailer teve alta rejeição na internet. A verdade é que o longa-metragem de Feig tem tudo para agradar aos fãs da série original.  Resta saber se eles estão prontos para abrir mão de seus preconceitos. Por que, se o papinho de “não sou machista, só não gosto dessa onda de remakes de Hollywood” colasse, o Star Wars de J.J. Abrams, ou mesmo Jurassic World, teriam sido retumbantes fracassos.

| Gabriel Fabri

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