Esquadrão Suicida

Os filmes de super-heróis mostram uma força gigantesca no cinema hollywoodiano desde o começo desse milênio. Mas, desde que o primeiro X-Men despontou nas telonas, não se via tamanha descrença neles: os heróis foram debochados em Deadpool e tiveram a sua existência e utilidade questionada em Batman vs Superman e Capitão América: Guerra Civil. Em tempos em que os bonzinhos brigam entre si e revelam-se imperfeitos, surge Esquadrão Suicida. Com direção de David Ayer (Corações de Ferro), o filme dá continuidade à criação do universo integrado da DC Comics no cinema.

Após a era do Superman, a preocupação com a seguração nacional é grande. E se o próximo Superman for inimigo dos Estados Unidos ou da humanidade? Para combatê-los, ao invés de criar um time de heróis, a agente Amanda Walker (Viola Davis) tem um plano: reunir os vilões mais perigosos para combater o crime. Colocados na cadeia em sua maioria por Batman (Ben Affleck), eles são soltos para combater uma bruxa – interpretada por Cara Delevigne (Cidades de Papel) – que planeja dominar o mundo. Mas como fazer com que eles trabalhem para o governo? Walker tem a solução em um chip, que pode matá-los com um clique à distância. Mas como fazer desse conjunto heterogêneo um time? Esse é o desafio.

Mas é aí que entra o papel de Will Smith, como o Pistoleiro. Apesar de ser um assassino de aluguel, seu personagem é também um pai de família e um sujeito engraçado. Se um dos fatores de sucesso dos filmes da Marvel é o bom humor de seus heróis, aqui é o personagem de Smith que ganha essa função mais cômica. Por isso, ele também é o líder do time. Mas não é ele a grande estrela desse esquadrão e sim Arlequina (Margot Robbie, que contracenou com Smith em Golpe Duplo), uma ex-doutora que se apaixonou por um de seus pacientes – o sociopata Coringa (Jared Leto, em uma atuação bastante contida, menos transloucada do que se esperaria).

Levada para o mundo do crime por amor, presa em uma relação violenta e aparentemente feliz com isso, ela está longe de ser apenas uma mulher bad ass como as heroínas do dia de hoje (essa função fica com a personagem de Viola Davis, excelente em seu papel). Não que Arlequina não seja uma heroína (ou vilã, como preferir) espetacular – ela é também, mas tem um passado, tem nuances e tem sentimentos que desafiam os conceitos de “certo” e o “errado” na moral do público. Afinal, ela está perdidamente apaixonada por um homem que a entrega como um objeto qualquer a um gangster. Ela era uma pessoa normal e hoje mata por ele – mas não é bem uma vítima, uma marionete na mão do Coringa, ela apenas fez escolhas que a maioria não aprovaria. É uma personagem inteligente e interessante, e Margot Robbie brilha nesse papel, que é central nesse filme e provavelmente deve ganhar bastante espaço (com razão) no universo da DC.

A verdade é que todos os vilões de Esquadrão Suicida são bem simpáticos – só falta simpatia à bruxa, que é a vilã tradicional do longa-metragem, uma vez que todos os outros vilões (exceto Coringa, um mero coadjuvante na trama) ocupam a posição de heróis pela iniciativa do governo. No fim das contas, há todo um desenvolvimento da narrativa para desembocar na mesma velha história do bem contra o mal, que Hollywood se apropria tão bem do melodrama do século XIX. A diferença aqui, é que esses heróis/vilões não convencionais de Esquadrão Suicida tem algo maior a dizer: não sonhamos mais com a perfeição, um conceito que parece ter ficado para trás no mundo dos super-heróis no cinema. Os heróis, como nós, tem um passado de erros e frustrações.Há uma descrença na perfeição, nos super-poderes – e um alívio, o de perceber que, agora mais do que nunca, todos temos uma vida ferrada, apesar das aparências do Instagram tentarem enganar. Nem os heróis estão imunes à vida. Mas os vilões, apesar de seus erros que vão de roubo à assassinato, todos podem se redimir. A cena pós-crédito, entretanto, está aí para mostrar que, não, não vai ser tão fácil.

| Gabriel Fabri