A Viagem de Meu Pai

A dor de perder a memória na velhice é retratada com leveza e graça em A Viagem de Meu Pai (Floride), de Philippe Le Guay (As Mulheres do 6º Andar), comédia francesa que traz Jean Rochefort no papel de Claude, um senhor de 80 anos esquecido e sem papas na língua. O idoso é teimoso, e começa o filme provocando a demissão de mais uma ajudante contratada para fazer companhia a ele. Sua filha, Carole (Sandrine Kiberlain), precisa se aproximar ainda mais do velho, que está piorando.

Embora fale de um tema duro, a atuação cativante de Rochefort provoca uma grande simpatia pelo personagem e é responsável pela veia cômica do filme. Mas o longa-metragem vai aos poucos preparando o terreno para o drama da história: os olhares de alegria inocente do personagem são de partir o coração, e contribuem para que o desfecho seja, mesmo que previsível, de uma tristeza aguda. Mas quem sofre mesmo é Carole, que precisa segurar a barra, sem contar para o seu pai que a filha que ele espera tanto que o venha visitar, Alice, está morta há nove anos – e ele se esqueceu disso. Como subtrama, há a morte de um ex-amigo de Claude, que é enterrado no mesmo cemitério da ex-esposa do velho. A jornada do personagem para mudar esse cenário é hilária.

O longa-metragem equilibra bem a mistura de drama e comédia. A aposta aqui é na atuação de Rochefort, o ponto alto do filme. Mas a constatação é dura: é possível ser feliz sem memória? A Viagem de Meu Pai mostra que sim. Mas tal felicidade é mera ilusão, quando você não sabe quem é aquela pessoa que está cuidando de você e se esforçando para isso.

| Gabriel Fabri 

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