Últimos Dias no Deserto

O cineasta Rodrigo García tem um currículo invejável para quem é ligado no universo da televisão norte-americana. Ele dirigiu episódios de diversos sucessos premiados como A Sete Palmos, Família SopranoAmor Imenso, Carnivàle e Em Terapia. No cinema, seu filme mais recente, Albert Nobbs, rendeu a Gleen Close uma indicação ao Oscar. Agora, García escreve e dirige um épico inspirado na história de Jesus, tendo o próprio personagem bíblico como protagonista – aqui interpretado por Ewan McGregor.

O episódio que inspira Últimos Dias no Deserto (Last Days in The Desert) é conhecido como A Tentação de Cristo e é relato nos evangelhos de Mateus, Marcos e Lucas. Em meio a um jejum de quarenta dias no deserto, Jesus foi testado pelo Diabo, que ofereceu a ele três tentações: transformar pedra em pão, acabando com a sua fome, sentindo-se poderoso para tal; jogar-se de um penhasco, para que todos vessem ele sobreviver (ou seja, a tentação da fama); e, por fim, propôs a entrega do poder em si.

O longa-metragem se descola dessa narrativa, mantendo o jejum de Jesus e a peregrinação no deserto, mas mudando a sua relação com o Diabo. O Diabo, aqui, é um duplo de Jesus, e pode ser entendido como uma outra face do próprio personagem. É a consciência reprimida dele, tanto que é interpretado pelo mesmo ator. E nunca, no filme, Jesus dá a entender que aquele seu outro é o diabo e não algo da sua cabeça, que questiona os seus movimentos. É uma consciência externa, uma certa ousadia do filme, dar a mesma face para o sagrado e o profano (embora não explicite que o duplo seria profano). Aqui está o maior ponto positivo do filme. O único grande teste pelo qual Jesus passa é a tentação da carne, quando o suposto diabo toma a forma de um mulher seminua, um assunto que poderia ter sido melhor explorado – afinal, o personagem era, antes de tudo, um homem comum.

Mas o que Jesus faz no deserto? Após o seu retiro espiritual, digamos assim, acompanhamos apenas a sua viagem de volta a Jerusalém. No caminho, ele encontra uma família, e é desafiado pela sua consciência externa (ou o Diabo, como preferir) a ajudá-la. Sim, porque o fracasso seria a sua penitência, e o “Diabo” sabe que Jesus não conseguirá harmonizar aquela família que ele encontra. O grande conflito entre eles? O jovem quer ganhar a vida em Jerusalém, a mãe está à beira da morte, o pai não quer deixar o deserto e não quer que o filho deixe o local também – um tema bastante atual, se pensar em filhos que deixam os pais para estudar ou trabalhar nas cidades grandes.

Arrastado e oco, o longa-metragem possui um Jesus pouco cativante e, ao tentar levantar questões religiosas, não consegue torná-las nada além de superficiais. O roteiro tem problemas: o momento de maior tensão no filme é completamente sem noção –  qual o propósito daquela escalada? E a questão toda da resistência do pai em deixar o filho viver a própria vida não poderia ter sido resolvida em um grande e iluminador sermão do filho de Deus? O pai deixa claro que é crente, em determinado momento, e isso só reforça a ideia de que Jesus está perdendo tempo ali no deserto, algo análogo à sensação que o público pode ter durante a sessão. Por fim, para coroar o filme, cenas aleatórias da crucificação – o desfecho da vida de Jesus que todos conhecemos e que não tem absolutamente nada a ver com todo o resto da história, um flashfoward que só não é mais desnecessário do que o que vem a seguir, quando o filme avança para o presente, para mostrar o que? Que o deserto continua ali…

| Gabriel Fabri