Anita Rocha da Silveira: “Queria uma personagem que não se deixasse levar pela moral vigente”

Uma série de assassinatos de mulheres jovens assusta a Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro. Bia (Valentina Herszage, premiada no Festival do Rio pelo papel) é uma garota de 15 anos, um pouco parecida com uma das vítimas. Ela e suas três melhores amigas fantasiam sobre os assassinatos, contam histórias sobre lendas urbanas, conversam sobre garotos e vivem um momento de dupla descoberta: do mundo e de si mesmas. A estreante Anita Rocha da Silveira pensou Mate-me Por Favor como um filme de transição, mas, na montagem, percebeu que se tornou também um suspense. Com trilha sonora funk e inspiração em David Lynch, o longa-metragem estreia em 40 salas por todo o Brasil nessa quinta-feira.

Em entrevista, Anita fala sobre a aproximação de morte e desejo de sua personagem, as inspirações que teve para construir a personagem principal, as suas influências no filme e a escolha de focar em um grupo de quatro meninas. “Eu acho que falta muito ter personagens mulheres e mostrar como desejam, o que sonham, o que pensam, o que querem”, explica. A entrevista com a atriz Valentina Herszage você lê clicando aqui.

Anita Rocha da Silveira na pré-estreia em São Paulo (Foto: Ali Karakas)
Anita Rocha da Silveira na pré-estreia em São Paulo (Foto: Ali Karakas)

Confira a entrevista completa: 

Como foi a construção da personagem Bia, que é tão complexa? Quais foram as suas principais preocupações?

Quando estava escrevendo a Bia, queria criar uma personagem que não se deixasse levar pela moral vigente. Eu acho que ela é bem uma garota que através do corpo vai se libertando de tudo ao redor dela e querendo experimentar as coisas, apesar de todo mundo ao redor falando “isso é certo, isso é errado”. A pastora diz que os jovens têm que ser puros, as amigas depois de um certo tempo começam a ficar com medo de caminhar de noite, mas ela não. É alguém que vai encarando tudo de uma forma que é através do corpo.

Na cena em que a Bia encontra o corpo de uma mulher que está a beira da morte, mas acho que no filme todo também, há uma tensão erótica ali, uma aproximação entre sexo e morte – Eros e Thanatos. Muitos teóricos estudam essa relação, essas oposições, medo e desejo, dor e prazer. Por que você escolheu trabalhar com essa temática na adolescência?

São realmente coisas que caminham de mãos dadas. Quando você perde a virgindade, você descobriu uma coisa nova, mas perdeu também uma pureza que você achava que tinha. Então desejo e morte caminham juntos. Então ali, quando ela beija aquela menina, que pode ser algo terno mas também ela está buscando alguma coisa, eu acho que de certo modo ela também se apaixona por aquela garota. Em uma situação de morte, ela reverte ali como algo justamente do desejo, e a partir desse beijo ela é afetada.

Acho que naquele momento, por mais bizarra que seja a situação, é como se ela descobrisse o amor. Até então ela tinha um namorado meio coxinha, meio playboyzinho, mas que é um cara que seria correto para namorar, o menino popularzinho do colégio. Mas naquele momento ela descobre algo ali que nunca tinha sentido. Então, pela morte realmente passa um desejo. Até porque para escrever a Bia eu me inspirei em uma amiga que cometeu suicídio, ela era bipolar e o modo como ela se matou foi algo extremamente inconsequente. Foi a primeira vez que ela tentou, uma surpresa para todo mundo, mas ela encarava a vida dela assim, ir testando, fazendo as coisas, sempre em um certo flerte com a morte, mas sem pensar muito a respeito. Então esse fascínio pela morte é algo que eu queria colocar nesse personagem por conta dessa inspiração inicial nessa amiga minha que eu perdi quando tinha uns 20 anos.

Muito interessante essa ideia de descobrir o amor na morte.

É, quase como se fosse um livro do romantismo, meio século XVIII, mas acho que até hoje a coisa passa por aí.

Até o título do filme passa por essa ideia também…

Eu tentei arranjar um outro título, por causa do livro (Escrito por Legs McNeil e Gilliam McCain, sobre a história do punk), mas acabou que…  Eu tentei pensar em outras ideias, mas acho que esse nome diz muito sobre o que eu queria passar no filme.

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O que eu mais gostei no filme é que você conta uma história com adolescentes, mas que fala de temas que são muito adultos, muito intensos. Você tinha essa preocupação de fazer um longa que transgredisse essas representações mais comuns de filmes adolescentes?

Eu acho que tinha mas não de modo consciente. Por ser um primeiro longa, é algo muito pessoal para mim, muitas questões que eu vi ou presenciei, acho que tanto na Bia quanto nas outras meninas, tem isso. E tem questões mais maduras porque escrevi o roteiro já adulta, mas eu também tinha essa vontade de fazer com que um jovem se identificasse com o filme. Conversei muito com as meninas, com muitos jovens também, e às vezes só ia na praia ficar ao lado de grupos de adolescentes e passava a tarde escutando as conversas deles. Então é um filme extremamente pessoal, com questões que eu passei, mas com a reflexão de alguém que escreveu já depois dos 25 anos. Mas também queria que o jovem se identificasse de uma maneira ou outra e oferecer um produto diferente do que estão acostumados a assistir por aí. E escrevi sem medo, sem ficar me policiando, sem tentar deixar mais fácil para o adolescente entender. Acho que hoje o jovem é muito subestimado nessa questão do que ele pode entender ou não. Alguém de 14 anos pode ver, se divertir e compreender e alguém muito mais velho pode ver também e tirar outras coisas dali.

Em uma entrevista para a Mostra você comentou que admira o David Lynch e que você parte do pressuposto de que compõe histórias de universos alterados, que não são como a vida real. Você acha que Lynch te influenciou nesse filme? Você vê o universo de “Mata-me por favor” como um ambiente fantástico, onírico?

Para construir o Mate-me, tive muito como referência o Twin Peaks (série de TV do David Lynch), justamente por todo o filme se passar em um espaço só, então eu pensei a Barra um pouco também como ele pensou Twin Peaks. Ao mesmo tempo eu acho que é um universo com muitas semelhanças com a realidade, mas tentei incluir alguns elementos fantásticos, então certos momentos parecem a vida como ela é, em outros eu me permiti com certa fantasia e exagero. Acho que o que o Lynch fez no Twin Peaks foi um pouco como o ponto de partida. Não só na maneira de pensar do espaço, mas também no modo como ele consegue variar do drama para o suspense e para o humor em uma mesma obra – até porque para mim é um pouco difícil definir o gênero de Mate-me. Twin Peaks é um pouco isso, qual o gênero da série?

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Qual a importância da Barra da Tijuca para essa construção onírica? Tem alguma crítica nessa escolha?

Eu tenha essa memória, de quando tinha uns dez anos, de vários amigos meus se mudando para a Barra com as suas famílias, e eu mantive contato, mas era como se eles tivessem saído para outro universo. Acho que tem essa questão da Barra que muitas famílias se mudam nesse sonho da classe média, de buscar esse lugar com condomínio gradeado, câmera de vigilância, aí o filho já vai a pé para o colégio, para a academia, para a aula de inglês, ali tudo dentro dessas grades, então o pai pode passar o dia todo trabalhando do outro lado da cidade. Mas acho que é ao mesmo tempo uma certa cópia mal sucedida do sonho americano, algo que lembra Miami, algo inspirado na vida na Flórida. Mas também a Barra é um bairro cheio de histórias de desaparecimentos, muito do que tem no filme inspirei em alguns acontecimentos de bairro.

Mas acho que a minha crítica está nesse sonho de classe média que dá um pouco errado. A família vem se mudar para aquele lugar todo brilhante, apartamentos padronizados, com toda aquela vigilância no condomínio, mas também onde estão os pais? E faz parte da adolescência não respeitar os limites e querer descobrir os espaços à sua volta.

Outra coisa que gosto muito é o impacto visual: os prédios altos e ao lado os terrenos baldios. Então tem esse contraste daquele prédio, uma cópia dos prédios de Miami, e do outro lado um terreno baldio com cobra e vários terrenos aguardando a especulação imobiliário. Isso visualmente me encantava muito.

A cena final, que parece de filme de zumbi, tem a ver com essa crítica de alguma forma?

Acho que não, na cena final a paisagem é bem marcante, bem típica da barra, mas para mim, é óbvio que tem essa conotação de zumbi, mas é mais a ideia de que o que aconteceu com a Bia não aconteceu só com ela, tudo o que passou nela é o que passa na mente e no corpo dos jovens. Experimentar os limites, arriscar. Eu quis contar a história dela, mas tantos outros passam pelo mesmo turbilhão, que de certo modo é tentar viver sem medo.

Elenco do filme na pré-estreia em São Paulo (Foto: Ali Karakas)
Elenco do filme na pré-estreia em São Paulo (Foto: Ali Karakas)

A revista Variety escreveu que o seu filme tinha um “sabor retrô de giallo”, que são aqueles filmes de serial killers italianos, alguns são considerados precursores do slasher. Essa produção serviu de inspiração para você no filme?

Eu acho que não tanto. Eu gosto muito do Dario Argento, mas eu me inspirei muitos às vezes em um certo tom que tem na obra do David Lynch e em filmes como o Carrie – A Estranha. Estou falando nisso na construção dos diálogos levemente exagerados. Mas pensando na personagem da Michelle (Julia Roliz), que é a que mais fala no filme, ela fala muito como eu falava. Essa coisa de parar e contar uma história, tem um pouco do modo como me comunico. Mas acho que por ser meu primeiro longa, uma série de influências minhas, de outros cineastas, eu quis colocar ali, de maneira consciente ou mais inconsciente. Mas também sem ter vergonha: tem a personagem da Amanda, que é super inspirada em Meninas Malvadas, o modo como ela chega e fala, o penteado, é a Regina George do colégio. Gosto muito do Dario Argento e também dos filmes de terror dos anos 1970 do Brian De Palma, que acho que tem uma influência sim.

Acho que existe em relação aos giallos uma diferença bem grande, nesses filmes as mortes são muito estilizadas e aqui você não mostra os assassinatos…

Sim, eu estava muito interessada em mostrar como a Bia e as amigas lidam com isso do que ser um filme… No primeiro tratamento do roteiro era muito mais como uma investigação policial, com assassinato e tal, mas depois eu percebi que eu queria contar como a Bia e as pessoas ao redor estavam lidando com isso tudo, mais do que mostrar o “isso” em si.

Qual foi o maior desafio na construção do suspense do filme?

Eu não sei, mas eu nunca encarei o filme como suspense, eu estava muito mais preocupada em fazer como um filme de transição, da passagem da adolescência para a fase adulta. Mas quando fomos montando, quando fomos pensar a trilha sonora, acabou que realmente ficou mais suspense do que eu esperava. Mas acho que situações assim, a cena em que a Bia corre na rua com medo, é uma situação pela qual eu já passei, de voltar para casa de ônibus, minha mãe achando que eu estava no táxi, mas voltei de ônibus porque me achava “fodona”, e depois tinha que caminhar cinco quadras de noite. São coisas de cada dia que dão medo e acho que todo mundo passa por algo assim, estar sozinho no ponto de ônibus, todo mundo já passou por aquilo e sente o mesmo medo do personagem.

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Com relação à cantora evangélica e ao namorado da Bia, aquela alegria toda dos cultos parece algo muito deslocado do universo do jovem, onde a gente vê na festa de 15 anos como as coisas não são tão bonitinhas assim. Como você vê esse contraste?

A Igreja foi inspirada em uma Igreja evangélica famosa, voltada para o público jovem e que justamente tem uma sede muito grande na Barra da Tijuca. Mas eu não sei, acho que do mesmo modo que para os jovens tem uma festa, para os outros a festa é na Igreja e ali é o lugar que socializam e conhecem gente. Tem o funk da pastora, que foi escrita especialmente para o filme, e é super irônico, já em um registro que está criticando aquela situação. E a festa foi inspirada em mil festas pelas quais eu já passei, aquele sentimento de estar deslocada, ali dançando meio se exibindo para você não sabe quem… E acho que vendo que escrevi já chegando nos meus 30 anos, tem algo muito melancólico e nostálgico, então foi para um tom melancólico porque foi eu me vendo naquelas situações ali, como a personagem Renata (Dora Freind) toda montadona para alguém reparar nela e ninguém repara. Estou lembrando de final de festa de 15 anos que ou você se arrumou com alguém ou você está muito triste em um canto. É algo muito extremo, ou está muito feliz, se agarrando no paredão, ou você está extremamente melancólico, observando aquilo e esperando o seu pai vir te buscar, querendo ir embora mas não pode. Então é algo assim, se você sobra, a festa de 15 anos é algo extremamente triste.

Com a escolha de focar em um grupo de meninas, o que você traz para o filme sobre ser jovem e mulher na sociedade?

Acho que é muito importante dar vozes a personagens femininas, até por ser uma diretora mulher, não que isso seja obrigação, não estou catequizando gente, mas sinto falta de mais filmes com mulheres protagonistas, e que justamente dão voz às garotas e suas questões – sem ser algo pautado por um homem, sem ser a namorada de alguém. Eu acho que falta muito ter personagens mulheres e mostrar como desejam, o que sonham, o que pensam, o que querem. Tanto que os dois maiores personagens masculinos, o namorado e o irmão, são bastante femininos. Eu queria dar voz justamente para algo que eu sinto que ainda não tem tanto por aí.

| Gabriel Fabri