Lembranças de Um Amor Eterno

Repetindo a parceria de décadas com o compositor Ennio Morricone (vencedor do Oscar por Os Oito Odiados), o cineasta italiano Giuseppe Tornatore (Cinema Paradiso) retrata a dificuldade de superar o luto de um grande amor por meio de uma trama curiosa que provoca as mais contraditórias emoções. Em Lembranças de Um Amor Eterno, a música de Morricone embala esses sentimentos confusos da protagonista, embora às vezes soe exageradamente melodramática.

Na trama, Ed (Jeremy Irons) e Amy (Olga Kurylenko) têm um caso que já dura seis anos. Ele é professor e pesquisador de astronomia, ela é uma atriz de cinema com interesse nessa área. Eles se encontram com certa dificuldade, afinal, ele tem família e ela uma agenda atarefada. Logo na primeira cena do filme, vemos o que seria o último encontro do casal, mas Amy só vai descobrir isso do jeito mais bizarro imaginável. Entretanto, mesmo após falecer, Ed não deixará de surpreender a garota que ele ama.

A premissa é interessante: quando alguém morre, um dos maiores desejos de quem fica seria poder ter mais algum momento, por menor que seja, com o falecido. Ed passou os seus últimos três meses de vida planejando a sua “imortalidade”. Para tornar o luto da amada mais fácil, ou melhor, para dizer tudo aquilo que não teve coragem de dizer quando estava vivo, o homem resolveu preparar uma série de surpresas, cartas, e-mails e presentes, uma ideia louca para minimizar os efeitos de sua inevitável morte, para a qual Amy não estava preparada – afinal, ele manteve sua doença escondido dela.

O gesto que poderia ser visto como um último grande ato romântico gera desconforto e confusão na protagonista, que precisa lidar com o luto e também com a incessante presença do falecido na sua vida – não é aquela presença das memórias, das fotografias, mas surpresas que tocam a toda hora no celular. Um gesto romântico, egoísta ou um pouco dos dois? O filme explora bem essa confusão, e também deixa o espectador nessa encruzilhada, vendo os prós e contras dessa tentativa de “driblar” a morte. Os contras, entretanto, poderiam ser melhor explorados: por exemplo, quando Amy almoça sozinha no mesmo restaurante de sempre, e tudo era como antes, exceto que Ed não está mais ali presente. Essa poderia ter sido a cena mais triste do filme, mas passa batido – faltou um pouco de maturidade aí, deixar o tempo congelar, ressaltar a tristeza com essa música. Como mandar a amada sozinha no restaurante onde comiam juntos poderia ser uma boa ideia? Qual o limite entre carinho e tortura nos gestos do homem? Ed era um homem dedicado, por ter planejado tudo isso, ou um homem covarde, que não teve coragem de lidar com os problemas enquanto estava vivo? Que preferiu se esconder dela ao invés de passar seus últimos momentos com a amada?  Abrir mão desses últimos momentos com ela é um ato de coragem ou covardia?

São muitas questões que permeiam o filme, que não consegue emocionar, apesar da insistência da trilha nesse ponto. Entretanto, Lembranças de Um Amor Eterno vale pela sua complexidade e toda essa gama de sentimentos contraditórios que traz à tona.

| Gabriel Fabri