Terra Estranha

Sexo ainda é um tabu e o longa-metragem australiano Terra Estranha (Strangerland) mostra como reagimos mal a esse instinto natural de todos os seres humanos. Na paisagem seca do deserto, em uma cidadezinha bem longe da metrópole mais próxima, uma família acaba de se mudar para, justamente, controlar os impulsos sexuais da filha mais velha, Lily (Maddison Brown), de 15 anos. Eles tentam reconstruir a vida após aquele núcleo ter sido alvo de algum escândalo envolvendo a garota em alguma outra cidade longe dali.

Após o desaparecimento de Lily e de seu irmão mais novo, Tommy (Nicholas Hamilton), tudo gira em torna da busca pelos dois, o que inclui revistar o quarto da menina, achando o seu diário com sonhos e delírios eróticos. No plano mais profundo, entretanto, tudo em gira em torno do sexo e da ausência dele. Quem lidera a busca pela garota, e também pela sexualidade (ou a compreensão dela), é a mãe, Catherine (Nikole Kidman). O pai, estranhamente, é cético quanto ao desaparecimento dos garotos, afinal, não é a primeira vez que a filha some.

A cena em que Catherine descobre o tal diário e se acaba em lágrimas causa estranheza, e não a identificação do público com o sofrimento de ter os dois filhos desaparecidos – afinal, naquelas páginas, com exceção de um desabafo sobre o casamento dos pais, havia apenas o registro de desejos sexuais, e não algo que pudesse desencadear aquele choro. A trilha sonora tenta criar algum suspense, de que há algo estranho naquele lugar, naquelas paisagens áridas e avermelhadas, e a todo tempo há de se perguntar o que tem de estranho ali. A questão é, e isso fica claro nessa cena do diário e mais adiante, que a bela Lily simboliza mais do que uma filha perdida.

Lily, em sua busca por viver e experimentar a sua sexualidade, lembra os pais de um passado perdido, morto por um casamento tedioso. Há, de um lado, o desejo dos pais de manter a ideia hipócrita de que sua filha é “pura”, especialmente do patriarca, Matt (Joseph Fiennes), que parece morrer de inveja daqueles que transam com a sua filha – não à toa, o público e os personagens começam a desconfiar de suas atitudes e suspeitar se Lily não havia sido abusada por ele. Do outro lado, há a noção de que Lily representa essa juventude e sexualidade perdida, o que soa como afronta aos pais, ao mesmo tempo em que também é uma afronta social – Lily não se inibe mesmo sabendo que a sociedade pode julgá-la mal por exercer a sua sexualidade sem amarras, por não bancar a certinha. Quando Catherine recebe um trote dizendo que a filha é uma “puta”, não sabemos porque isso dói nela: é porque ela considera isso uma ofensa ou porque ela também já exerceu essa mesma liberdade e sente a falta? Ou melhor, porque ela precisa disso também, completar essa ausência?

Embora prometa muito e entregue pouco, Terra Estranha, se lido nessa chave do sexo, levanta questões interessantes. É preciso certo esforço, porém, para destrinchá-las. Agora, uma coisa é certa: a ênfase na paisagem soa como se o diretor não tivesse muito o que dizer. Uma hora, aquelas imagens tantas cansam.

| Gabriel Fabri

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