Aloys (40a Mostra)

Quando crianças, temos amigos imaginários. E quando adultos, temos amigos de verdade? Não é o caso de Aloys (Georg Friedrich), um solitário detetive particular. A solidão transformada em delírio é o tema do longa-metragem que leva o nome do personagem. Vencedor do prêmio da crítica do Festival de Berlim, o filme suíço dirigido por Tobias Nölle consegue transformar a experiência do vazio em uma obra rica em detalhes e situações.

Após a morte de seu pai, com quem trabalhava como investigador, Aloys continua sozinho com os seus serviços. Até que um dia, após se embriagar, acorda no ônibus e descobre que foi furtado. Sua câmera e suas fitas foram roubadas. No lugar, uma fita que indica que ele estava também sendo observado. Um suspense psicológico que envolve chantagem e a troca do personagem, sempre um voyeur, para o centro das atenções? Na verdade, não. Nölle prefere o caminho do surrealismo.

A garota que persegue Aloys, a vizinha Vera (Tilde von Overbeck), é tão infeliz e solitária quanto ele. A partir do momento em que ela começa a fazer ligações, um laço começa a ser formado, embora na vida real eles nunca tenham se visto ou trocado palavras. O paralelo com os serviços de disque-sexo começa a ficar claro: Vera não quer jogar com Aloys, extorquí-lo, vingar alguma investigação que ele fez, um casamento que ele destruiu com as suas investigações talvez. Ela quer alguma coisa na vida dela – algum acontecimento, algum sentimento, algo para preencher o vazio. Aloys quer a mesma coisa, e precisa disso ainda mais. Quando suas investigações terminam, o homem tem o hábito de rever os vídeos gravados, em um exercício um tanto triste de voyeurismo (se fossem cenas de sexo, até que daria para dar um verniz de normalidade a esse hábito, mas são cenas cotidianas, o que mostra que a ausência na vida dele não é apenas sexual, é geral). É mais do que o seu hobbie ser igual ao trabalho, o seu hobbie é viver a vida dos outros através de uma tela (o que pode levar a pensar em um paralelo com o espectador de cinema). Então, quando Aloys descobre quem é Vera, ele não pode parar por ali.

A partir das ligações de Vera, o detetive cria uma nova vida, um novo mundo na sua cabeça. Um mundo com música, com festa, com amigos, com amor, com afeto, mais próximo da natureza. De repente, Aloys vira um filme surreal, em que a imaginação se mistura com a realidade, e as fronteiras se borram. Não há mais limite entre o que é real e o que é ficção na cabeça dele. Para o público, essa loucura é um deleite, ainda que um tanto triste. Um filme que pode ser difícil de tirar da cabeça. Afinal, quem nunca fantasiou que a sua vida poderia ser de uma outra forma? E se, de repente, você começasse a viver e acreditar nessas fantasias? Em Aloys, o amigo imaginário ganhou vida.

| Gabriel Fabri