Elle (40a Mostra)

Representante da França no Oscar 2017, Elle, o novo filme de Paul Verhoeven (Instinto Selvagem; A Espiã), é um impressionante drama que desafia o espectador a tentar compreender a personagem principal, Michèle, interpretada brilhantemente por Isabella Hupert.

Após ser estuprada por um bandido de máscara, Michèle tenta retomar a sua vida cotidiana como empresária de uma empresa de games. Ela, entretanto, não terá que lidar apenas com o trauma do estupro, pois logo percebe que está sendo perseguida pelo seu algoz. Algo em seu passado, que ainda pesa muito nessa mulher, a impede de procurar a polícia para denunciar o crime e as perseguições.

Verhoeven foca o filme na construção da personagem de Hupert e na teia de relações complicadas que a cercam – com o amante, com o ex-marido, com o filho burrinho, com a namorada do filho, com o vizinho, com a mãe e com a sua sócia na empresa. Usando ponderadamente o humor, inclusive humor negro (a cena da maternidade é impagável), Verhoeven constrói um universo complicado em torno da personagem, que cativa na interpretação de Hupert.

Desde o início, uma vez que o filme já abre com a cena do estupro, o público toma as dores daquela mulher, simpatiza com ela, ainda mais quando vai descobrindo, por exemplo, que esse não foi o primeiro grande trauma da vida dela. Mas o longa-metragem guarda uma reviravolta ousada, que coloca em questão os desejos mais obscuros do ser humano, e que torna Michèle uma personagem ainda mais rica e complexa do que vinha sendo apresentado.  Verhoeven força um distanciamento, a partir de algo que pode ser chocante ou incompreensível para uns, para tentar provocar o público no sentido de desnudar as aparências, quebrar com a previsibilidade, mostrar que o mundo não é maniqueísta, ou melhor, que nada é tão simples.

| Gabriel Fabri

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