Estados Unidos Pelo Amor

Vencedor do prêmio de Melhor Roteiro no Festival de Berlim, o polonês Estados Unidos Pelo Amor (Zjednoczone Stany Milosci) é um provocador melodrama sobre o desejo sexual feminino, as relações de poder entre homens e mulheres e a solidão. Retratando a Polônia no início dos anos 1990, depois do fim do socialismo no país, o cineasta utiliza tons escuros e uma montagem mais lenta, deixando muitas vezes a câmera estática: simbolicamente, é o retrato de um país sem vida, quase sombrio, cheio de incertezas quanto ao futuro.

Um longo plano de uma reunião de família abre o longa-metragem, com a imagem de uma mesa onde se sentam alguns dos personagens principais do filme. O roteiro constrói a história desses personagens dividindo-se em três núcleos, cada um com foco em uma mulher específica: no primeiro, vemos uma mãe e esposa infeliz que sente desejo sexual pelo padre; no segundo, a diretora de uma escola cujo amante acaba de perder a esposa – e, não, isso não significa que eles ficarão juntos agora, pelo contrário; por fim, uma idosa solitária que há seis anos observa uma vizinha, professora de dança, e finalmente resolve tomar coragem para se aproximar da garota. Mas como expressar o seu desejo (amoroso, sexual) pela mulher?

O ponto em comum entre todas essas três que protagonizam cada núcleo é a insatisfação sexual, a infelicidade com suas vidas amorosas, e a tentativa de buscar uma saída para essa crise que estão vivendo. Elas são vítimas, de certa forma, da autoridade masculina, e como nos filmes de Lars von Trier, tal autoridade será questionada mostrando toda a sua crueldade. Da crueldade nos pequenos gestos, quando a mulher se agacha para o padre e ele nada sutilmente a ignora, até as suas formas mais perturbadoras, o abuso sexual e a ameaça física.

Com uma arquitetura lenta, mas minuciosa, Estados Unidos Pelo Amor provoca e envolve, unindo essas mulheres de diversas gerações com problemas envolvendo gênero, autoridade e, o mais essencial, a infelicidade, a sensação de saturação de um cotidiano vazio. E o título só merece uma análise a parte: a chegada do capitalismo na Polônia não trouxe, pelo menos naquele momento recente, nem a união do título, nem o amor, talvez o sentimento menos presente nesse longa-metragem triste e frio.

| Gabriel Fabri 

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