Passageiros

Após o sucesso de Perdido em Marte, filme bem humorado em que o personagem de Matt Damon se vê sozinho em um planeta desconhecido, Hollywood aposta novamente em um “feel good movie” envolvendo personagens solidários no espaço. Sem tanto apelo pop quanto o filme de Ridley Scott, Passageiros (Passengers), de Morten Tyldum (O Jogo da Imitação), mistura romance, ação e um dilema moral dentro de uma nave que está há 90 anos de seu destino.

Ao longo de 120 anos, cinco mil pessoas hibernam durante uma viagem espacial para um outro planeta onde vão construir uma nova vida. 30 anos após a partida da Terra, Jim Preston (Chris Pratt) acorda misteriosamente – e percebe que está completamente sozinho e ficará assim por quase um século. Com a companhia de apenas um robô, interpretado brilhantemente por Michael Sheen, o homem tenta de tudo para voltar a hibernar, aproveita ao máximo o pouco lazer da nave, até que nota, entre tantas passageiras hibernando, uma linda mulher, a jornalista Aurora (Jennifer Lawrence). Acessando os vídeos dela no arquivo, Jim se afeiçoa a “bela adormecida”. Será que ele deveria acordá-la?

O espectador e o próprio personagem sabem que a resposta a essa pergunta, obviamente, é “não”. Acordar Aurora é mais que matá-la, é condená-la a passar o resto da vida presa em uma nave com um homem que ela mal conhece – o homem que a condenou a esse destino, sem que ela pudesse escolher. Mas Jim é um ser humano: fraco, carente, solitário, e que, entre um planeta e outro, vive em um território sem lei, onde ele é o mestre, mas sem poder algum, a não ser o de acordar uma bela garota para dividir esse purgatório com ele. E quem sabe, ser feliz. Aurora é, portanto, a única chance de felicidade de Jim, a sua salvação, mas alcançá-la seria o mesmo que condená-la. Mas a cada dia que Jim levanta, ele se defronta com essa possibilidade, diante do fato de que é impossível ele sobreviver sozinho e confinado por 90 anos, e mudar isso seria tão simples, mas tão errado, e poderia ser tão bom.

Pode até parecer que Passageiros é um filme cheio de conteúdo e dilemas. Mas uma vez que Jim toma a sua decisão, o longa-metragem alterna entre um romance água com açúcar e um filme de ação, com a iminência da nave explodir. Ainda resta porém aquela pulga atrás da orelha, até quando aquele romance pode resistir, com a verdade sobre a raiz daquele relacionamento oculta? O fato dos dois serem as únicas duas pessoas vivas (o resto hiberna) pode ser mais forte do que o peso da violência do ato de Jim?

Passageiros entretém, tem bom ritmo e é interessante por conta desse dilema que marca o relacionamento de Jim e Aurora. Lawrence esbanja carisma, e talvez o roteiro pudesse ter explorado melhor as dores da personagem dela, para o desfecho soar menos forçado ou ser mais denso. Há também o robô e bar tender de Sheen, que garante cenas engraçadas. Entretanto, a sensação que fica após o filme é de que algo estava faltando para completar essa história. A verdade é que, embora tenha um protagonista que é vítima e vilão, um homem moralmente questionável, mas que compreendemos, e levante uma boa reflexão, Passageiros é um filme que joga com certezas. Tyldum não se arrisca e, portanto, não surpreende o público. A ideia pode até ter sido audaciosa, mas a execução não. O que não tira o mérito de que o filme é uma boa diversão – mas, como diz o título, é passageira.

| Gabriel Fabri