Lion – Uma Jornada Para Casa

Com seis indicações ao Oscar, Lion – Uma Jornada Para Casa (Lion), dirigido pelo estreante Garth Davis, traz para as telonas a história real de um garoto indiano que se perdeu do irmão mais velho quando criança, mas conseguiu reencontrar a sua família após 25 anos afastado. O longa-metragem acompanha toda trajetória de Saroo (Dev Patel), dos momentos que antecedem o seu desaparecimento até a vida com a família adotiva na Austrália e a busca, via Google Earth, para encontrar a região onde ele cresceu.

Apesar do final emocionante, definitivamente o ponto alto do filme, Lion peca ao trabalhar o envolvimento do público com os seus personagens. Misturando Quem Quer Ser Um Milionário com Onde Fica a Casa do Meu Amigo?, a primeira parte do filme, em que acompanhamos Saroo como criança, é pura enrolação. Vemos algumas dificuldades pela qual o garoto passou até ser adotado por uma família australiana, como o fato de ele quase ter sido sequestrado e de não saber falar a língua da região da Índia onde estava. Toda essa situação, que poderia ser resumida em alguns flashbacks pontuais ao longo da narrativa, se arrasta.

Já quando Saroo é levado para a Austrália, a narrativa se desenvolve muito rápido, inclusive com um salto abrupto temporal de vinte anos, que mostram como Saroo virou o filho perfeito, em contraponto ao irmão, também adotado. A partir daí, o longa ganha certo frescor, como a cena em que ele e uma garota que acabara de conhecer na faculdade, Lucy (Rooney Mara), dançam na rua como se estivessem em um filme de Bollywood. Assim como as relações com a família, o desenvolvimento do relacionamento de Saroo com Lucy também parece meio atropelado, pois é só ao tomar contato com os amigos indianos dela que Saroo começa a pensar em suas origens, o que lhe traz conflitos existenciais e a necessidade de buscar o paradeiro da família original.

A sensação é de que o filme perdeu tempo valioso ao tentar construir uma aventura insossa no início da projeção, quando poderia ter concentrado forças na relação de Saroo com os pais adotivos, interpretados por David Wenham e Nicole Kidman; os conflitos com o irmão (o irmão também não ia querer conhecer a família dele?); e talvez até as relações com os amigos indianos, que mostram ao protagonista como alienado de suas origens ele é. Não havia necessidade também de contar linearmente essa história, uma escolha que empobreceu o filme, pois enfraqueceu o foco nos dilemas do personagem já adulto.

Apesar de arrastada, a obra com certeza vai emocionar o público, pois é realmente uma história boa de superação. Um dos pontos altos do filme é a personagem de Nicole Kidman, a mãe adotiva. Em determinado momento, ela revela para Saroo os motivos que a levaram a adotar crianças de rua da Índia, ao invés de engravidar e ter um filho de seu sangue. A cena é o coração do filme, pois provoca uma reflexão sobre a importância da adoção, um assunto que pouco é visto no cinema, já que o foco, como é na maior parte de Lion, costuma ser no drama da pessoa que não conhece os pais verdadeiros.

Por Gabriel Fabri 

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