Logan

Em coletiva de imprensa em São Paulo, Hugh Jackman revelou que, há 17 anos, quando estava filmando o primeiro filme dos X-Men, um amigo o aconselhou a assinar o contrato com outro filme antes da estreia desse: previa-se que o ator não arrumaria outro papel depois, se o filme de Bryan Singer fosse um fracasso. Não foi bem o que aconteceu e os super-heróis se tornaram a galinha dos ovos de ouro de Hollywood. Só os mutantes do X-Men, inspirado nos quadrinhos da Marvel, ganharam nove filmes – sete no qual Jackman faz o papel de Wolverine. Em Logan, o ator se despede definitivamente do personagem, o único da franquia a ganhar filmes solos (três, no caso).

A responsabilidade do filme dirigido por James Mangold (Wolverine: Imortal) era grande. Não só o personagem de Jackman se tornou um dos mais icônicos heróis do cinema, mas porque havia alguns obstáculos pela frente: X-Men: Dias de um Futuro Esquecido fez um nó na linha do tempo dos personagens difícil de desatar. E o filme seguinte, X-Men: Apocalipse, provou que a série, mesmo na sua formação mais jovem (a da segunda trilogia), já estava com sérios sinais de esgotamento.

Mangold, então, jogou a história de Logan para um futuro distante desses tropeços, focando em dois personagens essenciais da franquia. Além de Wolverine, traz o professor Xavier (Patrick Stewart), isolado no deserto, com demência e pouca saúde. Nesse futuro que remete um pouco a Mad Max pela paisagem árida, os mutantes estão quase extintos, e pode-se intuir que muitos dos rostos conhecidos da franquia estão mortos ou, como Logan (o verdadeiro nome do personagem de Jackman), tentando viver uma vida normal escondidos.

O longa-metragem está à altura de seus desafios, sendo um marco definitivo na franquia dos X-Men e uma bela despedida do personagem principal entre os mutantes. A escolha, como o próprio Jackman disse na coletiva, foi não fazer um outro filme de super-heróis. Logan não é um novo X-Men. É um road movie violento, onde o fato de que os personagens têm poderes é um mero detalhe.

Recentemente, Batman vs Superman tentou transformar o cinema de heróis em algo diferente, mais reflexivo até, mas não ousou abrir mão de certas características. O resultado é que, apesar de mais sério, ainda tinha aquela cara de filme de herói. Esse é o erro – ou, para os estúdios, a aposta segura – que Logan é ousado o bastante de não cometer.

O diretor segura a atenção do público durante todo o filme, que carrega nas doses de violência, mas que vai além disso, ao criar uma subtrama sobre crianças criadas para serem soldados. A ideia funciona muito bem, uma vez que apresenta uma nova mutante, Laura (Dafnee Keen), uma menina de 11 anos. Uma garota que consegue ser mais violenta que o próprio Logan e que tem na sua composição genética a mesma alteração do Wolverine. O homem não tem outra escolha a não ser protegê-la da corporação que quer recapturá-la para matá-la (ela é um experimento que deu errado). Seguindo as coordenadas de uma revista em quadrinhos (sim, dos X-Men!), eles partem em busca de um suposto refúgio de mutantes.

Logan é ação e entretenimento puro e ganha pontos por ser diferente dos filmes anteriores – é pesado, não só pela violência, mas pelos temas que carrega. A violência é um recurso narrativo e gráfico, mas também é tema, e está verbalizada em uma das falas mais importantes do filme. Quando Logan vira para Laura e aconselha, mais ou menos nessas palavras: “não seja aquilo que te fizeram”. Laura foi criada para matar (como Logan). Mas, ela pode ser quem ela quiser – ou melhor, ela deve ser quem ela é, não o que os outros projetam nela. E não é que a franquia toda fala no fundo sobre isso? Sobre aceitar as diferenças (e não cometer a violência de reprimi-las). Logan encontra uma maneira mais adulta e mais impactante de dizer isso.

Por Gabriel Fabri

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