Personal Shopper

Após a bem-sucedida parceria com Olivier Assayas em Acima das Nuvens, filme pelo qual ganhou o César de Melhor Atriz Coadjuvante, Kristen Stewart volta a trabalhar com o cineasta francês. Exibido no Festival de Cannes, de onde saiu com o prêmio de Melhor Diretor (apesar das vaias na sessão para imprensa), Personal Shopper é um instigante filme que deixa várias pontas abertas e que parece buscar frustrar deliberadamente o espectador – como frusta a sua protagonista na espera por um sinal do falecido irmão.

A sinopse é, no mínimo, peculiar. Maureen (Stewart) é uma jovem que leva uma vida entediante fazendo compras em shoppings para a sua chefe rica e sempre ausente. Seu namorado trabalha em uma embaixada no Oriente Médio há algum tempo e deve ficar lá por mais alguns meses. Com a morte do seu irmão gêmeo, que tinha uma anomalia cardíaca semelhante a dela, ela espera que um sinal dele venha do além, pois ambos fizeram uma promessa de que, quem morresse primeiro, se comunicaria com o outro de alguma forma. Os dois são médiuns, mas Maureen não tem muita certeza do que isso significa.

Personal Shopper é um filme sobre tédio e sobre o vazio, que se retroalimentam. A vida de Maureen é vazia, especialmente com a morte do irmão, e ela não tem nada melhor a fazer do que esperar esse contato dele. Por isso, ela se tranca no escuro e de noite em uma velha mansão esperando o espírito do falecido. Parece sem noção, mas muito é assim nesse filme, deliberadamente. Como o medo de Maureen de experimentar as roupas que compra para a chefe (ela nunca descobriria…); ou um violento assassinato que tem as consequências (banais) das mais inesperadas (uma investigação envolvendo joias que não leva a nada…); ou o fato de Maureen receber uma mensagem de um número desconhecido em seu telefone e perguntar se era o irmão falecido (como se os espíritos tivessem acesso a celulares).

Descrevendo os acontecimentos do filme, não parece um longa-metragem muito bem desenvolvido. Mas é nítido que Assayas quer provocar estranhezas. Por isso começa como se fosse um filme de terror (quem disse que não é?) e depois cria toda uma falsa expectativa em cima de um perseguidor que manda mensagens provocadoras. Por trás, constrói uma trama envolvendo espiritismo e o medo da morte e uma crítica à sociedade de consumo, um mundo de superficialidade que causa o tédio da protagonista. Entediada, a personagem possui desejos reprimidos, mas não busca satisfazê-los, e o público sequer os conhece direito. Ela fica a mercê de uma resposta do irmão para irromper esse ciclo de banalidade, precisando de um estranho ameaçador do outro lado do telefone para acordá-la para vida.

Flertando com o sobrenatural, Personal Shopper é um drama estranho, que abre várias situações, apenas para fechá-las sem respostas. O final é simples e desconcertante tanto para o público quanto para o protagonista, porque satisfaz e frustra expectativas ao mesmo tempo. As vaias e os prêmios são, portanto, justificáveis: é difícil ficar indiferente a esse filme, que guarda várias frustrações na manga. Afinal, a vida não é assim?

Por Gabriel Fabri  

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